terça-feira, 28 de julho de 2009

Conquistando respeito


Por Rick Warren

Para alcançar sucesso no trabalho é indispensável boa reputação. Estudo recente revelou que a diferença entre os melhores profissionais de vendas e os de desempenho médio, não está no seu talento, mas na reputação. As pessoas têm mais confiança naqueles que atingem as maiores performances em vendas, cuja produtividade é, em parte, reflexo da confiança que conquistaram.

Ninguém gosta de fazer negócios com quem não respeita. A Bíblia ensina: “A boa reputação vale mais que grandes riquezas” (Provérbios 22.1). Em outras palavras, a confiabilidade que as pessoas lhe atribuem é mais importante do que o valor do seu salário.

Um erro comum que se comete é pensar que reputação é apenas questão de imagem, ou seja, a forma como os outros a percebem, baseado em fatores externos. Sendo assim, elas se preocupam com questões como: “Como está minha aparência?”, ou, “Será que eu disse a coisa certa?” A construção de uma reputação duradoura, entretanto, requer que o foco se concentre sobre o caráter (o que não é visto, o que é interno) e não na imagem (o que é visível exteriormente). É preciso conquistar o respeito.

Os livros de Provérbios e Salmos na Bíblia dão algumas dicas sobre como conquistar o respeito dos outros:

. Pela integridade. Nos negócios, ganhamos respeito ao longo do tempo, pela demonstração da consistência entre o que falamos e o que fazemos. Não é algo que se possa comprar ou simplesmente conceder a alguém. “Quem anda com integridade anda com segurança, mas quem segue veredas tortuosas será descoberto”(Provérbios 10.9).

. Pela humildade. Quando as pessoas percebem humildade disposição para por de lado metas e interesses pessoais a fim de encarar os outros como mais importantes do que nós mesmos elas se tornam mais desejosas de trabalhar conosco.“O orgulho do homem o humilha, mas o de espírito humilde obtém honra” (Provérbios 29.23).

. Pela confiança. Ao ver que cumprimos nossa palavra e nossos compromissos, mesmo quando são inconvenientes ou nos custam caro, conquistamos respeito. “Aquele que mantém a sua palavra mesmo quando é prejudicado... nunca será abalado” (Salmos 14.2-5).

. Pelas prioridades estabelecidas. Empregados, colegas de trabalho, clientes e fornecedores nos respeitam quando têm confiança que os propósitos e metas que estabelecemos foram cuidadosamente avaliados. “Quem procura o bem será respeitado...” (Provérbios 11.27).

. Pela generosidade. A pessoa que pensa nos outros e considera sinceramente suas necessidades merece o respeito deles. “Reparte generosamente com os pobres; a sua justiça dura para sempre; seu poder será exaltado em honra” (Salmos 112.9).

. Por colocar Deus em primeiro lugar em sua vida. A quem você serve, seja no trabalho ou na vida pessoal? Qual é o fundamento para o que você faz e as decisões que toma? Sua resposta a estas perguntas afetará grandemente a medida de respeito que receberá dos outros. “Então você terá o favor de Deus e dos homens, e boa reputação. Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e Ele endireitará as suas veredas” (Provérbios 3.4-6).

domingo, 19 de julho de 2009

O que acontece quando Deus não responde? Parte II

por Philip Yancey

Ao estudar cada um dos contextos que contém as promessas, aprendi alguns fatos que me ajudaram a entender o problema. O assunto como um todo é ainda misterioso e levemente confuso, mas minha amargura com relação às orações não respondidas se dissipou à medida que fui compreendendo alguns fatores por detrás do papel da oração na vida cristã.

1. As declarações de Jesus, tomadas ao pé da letra, são irrealizáveis, de modo que precisamos buscar um significado por trás delas. Por que são irrealizáveis? Porque as pessoas oram com pedidos contraditórios, e Deus não pode responder a ambos.

Durante a guerra civil norte-americana homens piedosos de ambos os lados, como Abraham Lincoln, Stonewall Jackson e Robert E. Lee, oraram todos intensa e constantemente pela vitória, mas norte e sul não poderiam vencer simultaneamente.

Se a Universidade Oral Roberts e o Wheaton College (ambas organizações cristãs) se enfrentam no basquete, ambos os times podem orar pedindo a vitória, mas posso garantir que um time não terá seu pedido atendido.

Há uma ilustração ainda mais contundente: Jesus não recebeu o que pediu no Getsêmani. Ele pediu a Deus que, por favor, encontrasse uma alternativa para poupá-lo da dor, se fosse da vontade dele (Lc 22:42). Esse fato é quase sempre ignorado no ensino cristão acerca da oração. Nosso modelo para toda a vida, o Homem perfeito com a fé perfeita e que nos ensinou a orar, foi morto, embora tivesse pedido a Deus, seu Pai, que o poupasse! Obviamente, algumas orações são recusadas, não importa quão cheios de fé estejamos.

Paulo teve um problema semelhante, fruto de uma indis¬posição física que ele chamou de seu "espinho na carne" (v. 2Co 12:7-9). A despeito de três apelos a Deus para que lhe extinguisse a dor, a oração de Paulo não foi atendida.

Concluo, portanto, que o que Jesus disse não pode ser aplicado a todas as orações o
tempo todo.

2. Cada uma das declarações extremas de Jesus sobre a oração foram dirigidas a um grupo específico de pessoas: os discípulos. Durante seu tempo na terra, Jesus selecionou doze homens para levar adiante seu ministério depois da ascensão. Eles foram pessoas especiais, com dons especiais dados por Deus (eles eram tão seletos que quando a igreja decidiu quais textos seriam incluídos no Novo Testamento, ela incluiu os escritos pelos discípulos quase automaticamente).

Não seria o caso de que Jesus deu aos discípulos certos direitos e privilégios com respeito à oração que não se aplicam a todos os cristãos igualmente? Afinal, qual de nós pode repetir os milagres de Pedro ou os textos inspirados de João?

Os escritores do evangelho não dizem explicitamente "esses mandamentos aplicam-se apenas aos discípulos", mas nos dizem, em cada caso, que Jesus estava conversando com os doze discípulos, e não com uma grande multidão.

Francamente, não sei quanto devo levar adiante este argumento. Porém talvez ele ajudasse a explicar a abrangente natureza das promessas de Jesus. Talvez ele estivesse investindo seus discípulos com um dom específico de ousadia e de percepção da vontade de Deus. Eram homens maduros que haviam passado três anos aprendendo diretamente com Jesus; há boas chances de que eles teriam uma boa idéa de quais orações fariam avançar o propósito de Deus sobre a terra e quais seriam meros caprichos (do tipo "ajude nosso time a vencer").

É interessante que em passagens como l João 5:14, 15, escrevendo para um grupo grande, João diz cuidadosamente que "se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve". Essa frase "segundo a sua vontade" é uma verdade fundamental.

3. Uma vez que foi Jesus quem fez as afirmações abrangentes sobre oração, fiz questão de observar com cuidado o tipo de orações que ele fez. Um tipo em particular me surpreendeu. Eu sempre havia visto as orações como um ato determinado por mim e também concentrado em mim, o agente da oração. Mas as orações de Jesus mostraram que o verdadeiro foco está no Pai, aquele a quem ele orava. Ele usava a oração como um período de comunhão com o Pai, para renovar-se na vontade de Deus, para pedir forças. Ele também a usava para agradecer a Deus pelo mundo e para mencionar seus amigos que tinham necessidades. Era uma conversa, não uma lista de compras.

Charlie Shedd chama a oração de "um diálogo interior com seu melhor amigo". Comecei a perceber que eu a via como uma varinha mágica que eu podia mover a fim de levar Deus a fazer o que eu queria. No entanto, não estou no comando da oração. Deus está.

Muitas pessoas compartilham do conceito errado que eu já tive sobre a oração. Por exemplo, Mark Twain, que se sentiu incomodado pela oração não respondida, expressou o dilema em Huckleberry Finn. Huck aprendeu uma lição da srta. Watson em oração.
"Ela me disse para orar todos os dias, e que tudo que pedis¬se eu receberia. Mas não foi bem assim. Eu tentei. Uma vez ganhei uma linha de pescar, mas sem anzóis. Não servia para nada sem anzóis. Tentei orar por anzóis três ou quatro vezes, mas não funcionou. Chegou o dia em que pedi à srta. Watson que tentasse por mim, mas ela disse que eu era um tolo. E nunca disse por quê. Não consegui fazer funcionar de jeito nenhum.

Sentei uma vez lá na floresta e matutei muito sobre a coisa. Digo a mim mesmo: 'Se o sujeito pode conseguir qualquer coisa que pedir na oração, por que o diácono Winn não recebe de volta o dinheiro que perdeu na carne de porco? Por que a viúva não recupera sua caixinha de rapé prateada que foi roubada? Por que a srta. Watson não engorda?' Não, digo a mim mesmo, essa é uma roubada".

É obvio que Huck queria um gênio da garrafa que realizas¬se seus desejos, não um Deus que fosse Senhor de sua vida. A fé, para ele, era uma ginástica mental a fim de conseguir o que queria. Porém a fé deve ser colocada em Deus, confiando em seu amor e sua disposição em responder com sabedoria.

Quando li as Escrituras examinando as orações, não pude evitar a constatação de que os pedidos são uma pequena parte da oração. Algumas delas são de adoração, de arrependimento, outras de louvor. Os salmos, por exemplo, são uma série de orações em forma de poesia. Leia-os todos, e você percebe¬rá quão poucos deles são essencialmente pedidos.

As orações pedidos são simplesmente isso: pedidos. A oração não é uma máquina automática que cospe a recompensa apropriada. E um clamor a um Pai amoroso para que se relacione conosco.

O motivo da oração não pode ser "o que posso ganhar?". Isso é mágica. Ele tem de ser: "Deus, creio que essa é a tua vontade, mas ela está além do meu poder. Podes me ajudar?". Na oração do Pai Nosso, Jesus expressou-o da seguinte maneira: "venha o teu reino, seja feita a tua vontade".

A Bíblia é clara quanto ao fato de que Deus responde às orações, mesmo aquelas que não são respondidas do modo como gostaríamos que fossem. Ele considera cuidadosamente os pedidos mais absurdos e egoístas. Quando crianças pedem coisas tolas a pais sábios — coisas como "posso ficar acordado para assistir àquele programa bem tarde da noite?" ou "você vai me deixar dirigir, mesmo eu tendo só doze anos?" — nem sempre conseguem o que querem. Com frequência os pais sabem julgar o que é bom para seus filhos.

Para mim não é tão impressionante que Deus se recuse a atender a alguns de nossos pedidos. O impressionante é que sejamos ouvidos! Todas as orações acabam na caixa de entra¬da de Deus. Nosso papel é enchê-lo de pedidos, e então entregar-lhe a confiança que aceita as respostas dele.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Oração - O que acontece quando Deus não responde? Parte I

Philip Yancey

Sempre me disseram que a oração deveria ser uma con¬versa espontânea e natural entre mim e Deus. Porém, na maioria das vezes, na minha experiência, ela tem se torna¬do uma frustração a mais, em especial por causa de todas as minhas orações não respondidas.

Não sou o único com este problema. Na verdade, ele é maravilhosamente expressado num romance que está no currículo de leitura de muitas escolas de ensino médio e de faculdade nos Estados Unidos. Of human bondage (Da servi¬dão humana), de Somerset Maugham, é, na maior parte do texto, uma autobiografia. Ela inclui um incidente dramati¬zado que aconteceu a Maugham, do qual sua fé nunca se recuperou.

O personagem principal, Philip, havia descoberto o versí¬culo em Marcos que diz: "Qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome, crendo, receberão". Ele lembrou imediatamen¬te de seu pé torto.

"Ele poderia jogar futebol. Seu coração saltou de entusiasmo enquanto se imaginava correndo mais rápido que todos os ou¬tros meninos. Depois do período de Páscoa havia atletismo, e ele poderia se inscrever para as corridas; ele se imaginou saltan¬do as barreiras. Seria esplêndido ser como todo o mundo, não se sentir observado com curiosidade pelos novos garotos que desconheciam sua deformidade, nem precisar de incríveis pre¬cauções para se banhar no verão, enquanto se despia, antes que pudesse esconder o pé dentro da água.

Ele orou com toda a alma. Nenhuma dúvida o atacou. Ele estava confiante na Palavra de Deus. E na noite anterior ao dia em que deveria voltar para a escola ele foi para a cama tremendo de empolgação. O chão estava coberto de neve, e tia Louisa se permitira o luxo incomum de acender a lareira do quarto dela, mas no pequenino aposento de Philip estava tão frio que seus dedos adormeceram, e ele teve grande difi¬culdade para desabotoar o colarinho. Seus dentes batiam. Ocorreu-lhe a idéia de que devia fazer algo diferente do corri¬queiro para atrair a atenção de Deus; ele afastou o tapete que ficava em frente à cama, de modo a poder ajoelhar-se direta¬mente nas tábuas nuas, e então ocorreu-lhe que seu pijama era um conforto que poderia desagradar ao seu Criador, de modo que o despiu e fez suas orações nu.

Quando voltou para a cama, ele estava com tanto frio que por algum tempo não conseguiu dormir, mas quando o fez, foi de modo tão profun¬do que Mary Ann teve de sacudi-lo quando lhe trouxe sua água quente na manhã seguinte. Ela conversou com ele en¬quanto abria as cortinas, mas ele não respondeu; tinha lem¬brado que aquela era a manhã do milagre. Seu coração estava cheio de gratidão e de alegria. Seu primeiro impulso foi o de colocar a mão sobre o pé que agora estava são, mas fazer isto seria duvidar da bondade de Deus. Ele sabia que seu pé estava curado. Por fim ele decidiu, e com os dedos do pé direito to¬cou o esquerdo. E passou a mão sobre ele.

Ele desceu mancando exatamente no momento em que Mary Ann entrava na sala de jantar para a oração, e sentou-se para o café.

"Você está muito quieto esta manhã, Philip — disse a tia Louisa."

Quase todas as pessoas que conheço já tiveram uma expe¬riência semelhante a essa. A despeito das orações, os melho¬res amigos morrem em acidentes de carro; amigos e chefes se recusam a ver seu ponto de vista sobre certa decisão; você permanece preso a um pecado trivial.

O único sobrevivente de um acidente de avião escreve um artigo sobre como suas orações foram respondidas, mas e to¬dos os que não viveram para escrever?

Tenho lido as promessas específicas sobre oração na Bíblia e tentado seguir as instruções. Quis alívio para uma dor de garganta ou quis encontrar um texto importante que perdi, mas nada aconteceu em resposta a minhas orações. Então me pergunto: será que há alguém escutando? Tenho de admitir que essa experiência de orações não respondidas ajudou a des¬truir minha fé por algum tempo quando eu era adolescente. Se eu não podia contar com Deus, com quem poderia contar?

Escritores cínicos como Mark Twain e Bertrand Russell relacionam orações não respondidas como uma das principais razões por que nunca conseguiram engolir o cristianismo.

O problema central das orações não respondidas é que Jesus parece ter prometido que elas não existiriam. Ele poderia ter dito algo assim: "Senhoras e senhores, gostaria de apresentar-lhes o conceito de oração. Vocês sabem, naturalmente, que não se pode esperar que todos os humanos tenham sabedoria perfei¬ta, como Deus tem, então há limites quanto a quais de suas orações serão respondidas. As orações funcionarão exatamente como uma caixa de sugestões. Expressem claramente seus pe¬didos a Deus, e posso garantir que todas as solicitações serão cuidadosamente consideradas".

Eu poderia conviver facilmente com esse tipo de declara¬ção sobre a oração. Mas ouça o que Jesus realmente disse: "E tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês receberão" (Mt 21:22, NVI).

"Também lhes digo que se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus" (Mt 18:19, NVI).

"O que vocês pedirem em meu nome, eu farei" (Jo 14:14, NVI).

Essas são apenas algumas das veementes declarações a res¬peito do assunto no Novo Testamento. Há muitas outras, como João 16:23-27 e Marcos 11:24. Se tiver interesse, verifique-as. Elas comprovam para mim que não posso fugir do problema dizendo: "Jesus não prometeu realmente que as orações seriam respondidas". Todas essas garantias são feitas em profusão, e em português claro. A Bíblia não é vaga nessa questão.

Qual é, portanto, a solução para esse problema de oração não respondida?

Se voce quer saber a resposta, aguarde a reflexão da próxima semana.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Quando dois destinos se cruzam

por Ricardo Gondim

Há muito tempo, quando Jesus viveu na Palestina, fui testemunha do dia ensolarado quando ele desceu do barco, e mesmo procurando ir para casa, precisou alterar os planos. Aconteceu assim:

Um homem se jogou no chão, gritando. Dizem que era Jairo, um dos líderes daquele lugar esquecido do mundo. Contaram-me de sua fama. Era o rico que se vestia com linho fino.

O seu desespero foi tão grande, que nos viramos espantados em sua direção. Todos queriam vê-lo de joelhos, naquela beira de praia enlameada. Jesus foi até Jairo, levantou-o pela mão e logo perguntou a razão de tanto desespero.
– Minha filha, minha filha. Foi só o que deu para ouvir.

– O que tem a menina? Perguntou Jesus com voz firme.

– Está morrendo, está morrendo! Por favor venha comigo, me ajude. Insistiu Jairo.
Jesus chamou os amigos, que sempre andavam com ele, para que o seguissem até a casa de Jairo. Depois de caminharmos uns oito quilômetros, uma pequena multidão de curiosos se juntou a nós.

Sem mais nem menos, uma mulher veio, abruptamente, querendo tocar nas costas de Jesus. Eu estava bem do seu lado. Ela era uma senhora de uns 35 anos, cabelos longos e brancos, com olheiras muito roxas, e bem magra.

Na hora em que essa mulher segurou na franja da roupa de Jesus, ele perguntou o que era aquilo; quem empurrava, quem segurava daquele jeito. Tremendo, a pobre mulher contou que uma vizinha lhe dissera que Jesus podia curar qualquer doença.
Jesus insistiu em saber que mal a afligia. Ela contou, muito envergonhada, que sofria de um pequeno sangramento vaginal, parecido com uma leve menstruação.

– Senhor, há doze anos sou impura e não posso chegar perto de ninguém. Há doze anos meu marido não me procura para o amor. Há doze anos não chego na porta da sinagoga. Mas eu cri. Pensei que se encostasse a minha mão impura no Senhor, ficaria curada.

Nesse instante, lembrei-me que não poderíamos demorar. A filha de Jairo agonizava e a mulher alongava a conversa . Essa história de tocar na orla do vestido e ficar sã soava como uma grande superstição. Afobei-me, solidário com a dor de Jairo. Jesus, porém, pareceu-me calmo, em total controle da situação.

-Realmente, mulher, senti vazar poder de mim na hora em que você me tocou. Vá em paz! Você está curada. A sua fé lhe salvou.

A conversa demorou demais, principalmente para Jairo. A sua ansiedade era visível; o suor ensopava a camisa de linho. Não dá para descrever o abatimento na hora que um amigo lhe contou que a filha tinha morrido. Jairo chorava convulsivamente, quando ouvimos um grito anônimo: “Não adianta, a menina já está morta; Jesus demorou demais”.

Revoltei-me com a pessoa que gritou. “Que falta de sensibilidade com o pai, e de respeito com Jesus”

– Vamos! Com esta única palavra, Jesus puxou Jairo pela mão.

Na porta da casa, notamos que muita gente havia chegado antes de nós. O que mais nos chamou a atenção, foi o espetáculo das choradeiras profissionais. Ainda hoje não sei quem as contratou. Que horror aquele pranto artificial.

- Minha filha, minha filha, ela morreu, choramingava a mulher de Jairo no corredor.

A cena era macabra e confusa. Choros se misturavam a conversas e ninguém entendia ninguém.

– Pedro, Tiago, João, venham comigo. Os outros esperam aqui do lado de fora. Jairo, traga a sua mulher. Não quero mais ninguém dentro do quarto, avisou Jesus.

Alguns anos depois, Tiago me contou que Jesus se aproximou da menina e ordenou com brandura: Talita cume! E a menina o obedeceu, como se despertasse de um cochilo. A algazarra que se fez na casa de Jairo foi tremenda, mas agora de alegria. Quando vimos a menina sorrindo, sã e salva, todos choramos emocionados.
Daquele dia aprendi algumas lições.

Jairo tinha uma filha de doze anos que não queria perder; a mulher, uma doença de doze anos que queria se livrar.

Jairo era rico; a mulher, pobre.

Jairo pediu o milagre do jeito certo, ajoelhado; a mulher simplesmente roubou a sua cura.

Jairo intercedia por uma filha, que sofria com uma enfermidade aguda; a mulher pedia por si, por uma doença crônica.

Jairo não podia esperar, mas foi obrigado a aguardar; a mulher, que já sofrera doze anos, tinha como esperar mais uma ou duas horas, contudo, foi prontamente atendida.

Jairo era um personagem público e viu o milagre no privado; a mulher sofria com um mal constrangedor e foi curada em plena praça. - Jesus respeita a realidade de cada um; o homem já tinha se exposto demais, agora precisava ser preservado; a mulher, que padecia de uma doença estigmatizante, necessitava ser resgatada em sua dignidade diante de todos.

Hoje entendo que não existem jeitos certos, rituais adequados ou preferidos por Deus. Ele age tão somente pela graça. Jesus, sempre surpreendente, maravilhou-me salvando duas pessoas que se cruzaram numa estrada, e eu nunca mais fui o mesmo.

Soli Deo Gloria

Se voce quer ler a historia original na Biblia, leia o livro de São Marcos 5:21-43

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Existe um Deus que se IMPORTA?


por Tim Stafford
■ Dúvida:
A fé despedaçada, como os ossos quebrados, pode voltar fortalecida.

Minhas dúvidas sobre Deus aparecem, na maioria das vezes, em meio às multidões. Fico calado e observo as levas de gente passando por mim. Cada pessoa tem o próprio rumo e os próprios pensamentos. Cada uma delas, eu penso, não está nem aí com a minha crença de que há um Deus que se importa. Sinto-me sozinho e insignificante, estarrecido diante da democracia da incredulidade. Quem sou eu para dizer que meu raciocínio faz mais sentido que o deles? Eles parecem tão sólidos e seguros em seus negócios; como eu poderia convencê-los de um Deus que os ama? Eles não estão sequer interessados. Pergunto-me se o louco não sou eu.

Você se sente desconfortável por saber que eu, que deveria ser um cristão resoluto e confiável, tenho dúvidas? Que tem havido noites quando literalmente grito com Deus, implorando por algum sinal de que ele seja real? Houve tempo em que eu me sentia ameaçado se um cristão me falasse de seus questionamentos mais profundos. Se outros tão bons quanto eu estavam pensando em abandonar o navio, não estaria eu apenas me enganando por continuar crendo?

Eu, além disso, achava que as dúvidas eram o pior perigo para um cristão. Não penso assim agora. As dúvidas são coisa séria. As vezes conduzem à rejeição de Deus. Mas com maior freqüência, creio que, se confrontadas honestamente, podem conduzir a uma fé ainda mais forte.

Há coisas que me preocupam mais.

Preocupa-me quando alguém está conscientemente desobedecendo a Deus e racionalizando sua desobediência. Nada destruirá a fé mais rápido.

Preocupa-me quando alguém sustenta uma fachada de fé vibrante, enquanto as dúvidas e a solidão espreitam por trás.

Preocupa-me quando um cristão não consegue se relacionar com outros cristãos, em vez disso exibe uma lista interminável de como foi enganado, maltratado ou sofreu abuso.

Preocupa-me quando alguém está encontrando uma fé "nova e mais madura" que dispensa coisas como conhecer a Bíblia, a oração e a adoração com outros cristãos. Um indivíduo pode abandonar essas coisas por algum tempo, mas não gosto de ouvi-lo dizer que encontrou uma condição nova e melhor sem elas.

Mas e as dúvidas? Elas têm seu lugar, na Bíblia pelo menos. Das perguntas inflamadas de Jó ao "mostre-me" confuso e obstinado de Tomé, as dúvidas são tratadas com franqueza. Os que duvidam são corajosos o suficiente para fazer as perguntas; gente piedosa que sabe todas as respostas e faz rapidamente calar os questionadores parecem suscitar mais a ira de Deus.

Quando você está duvidando da existência de Deus, pode ajudar a definir o que está sendo colocado em dúvida. Analise seu problema antes de procurar pela solução. Mas busque as respostas. Os muros da fé cristã não são tão finos que você fará um buraco neles se empurrar com muita força. Se perguntar honestamente, encontrará respostas — embora nem sempre as respostas que gostaria. "Busque e você encontrará", Jesus prometeu. "Bata e a porta se abrirá". Essa foi uma pro¬messa aos discípulos. Eles haviam escolhido segui-lo. Tendo feito isso, ouviram do próprio Jesus, que criou a terra, a pro¬messa de que não permaneceriam confusos para sempre, desde que estivessem dispostos a buscar e a pedir.

Dúvidas solitárias são, creio, as mais comuns. É difícil crer no amor de Deus quando não há pessoas a sua volta que o amam. É necessária uma força incomum para atra¬vessar por um período assim sem dúvidas graves. Somos feitos para experimentar o amor de Deus através de pessoas, bem como através do próprio Deus.

Mas se você está sozinho, certifique-se de que seja esse o foco de suas dúvidas. Não saia por uma tangente filosófica sobre os que sofrem na Índia. Fale com Deus sobre a realidade da amizade humana, e peça que ele comece a lhe mostrar como fazer um bom amigo. Peça também que ele mostre um propósito para sua solidão, alguma maneira pela qual você possa crescer através dela. Não vai acontecer da noite para o dia, mas com um sentimento de direção suas dúvidas sobre Deus se dissiparão. Ele se tornará seu aliado na cura da solidão, em vez de seu adversário.

Dúvidas de crise são freqüentemente mais intensas. Em God and man at Yale (Deus e o homem em Yale), William F. Buckley disse que sempre que tinha dúvidas sobre Deus ele deitava até que elas passassem. Não se trata de uma receita ruim. As dúvidas muitas vezes, e particularmente as dúvidas de crise, são uma resposta a sentimentos poderosos de tristeza, reforçados pela fadiga. Elas passarão. É claro que crises podem e devem começar a suscitar perguntas que têm implicações duradouras. Mas não se iluda pensando que vai conseguir resolver o problema do sentido do universo numa noite sem sono. Você não tem capacidade para fazer isso. Reconheça que está em crise, faça as perguntas, mas guarde-as para mais tarde. Durma se puder. Procure um amigo que o console. Na maioria das vezes, o que você precisa é de uma oportunidade de expressar suas dúvidas, e elas se dissiparão. Se não for o caso, não tome decisões importantes. Espere para resolver suas questões depois, quando estiver descansado.

Creio que as dúvidas intelectuais sejam, de fato, as menos comuns. O motivo é que poucos de nós somos intelectuais. Mas muitos de nós gostaríamos de ser, e é difícil admitir que não podemos ter todas as respostas. Assim, elaboramos mui¬tas de nossas dúvidas sob a forma de perguntas intelectuais, em parte para manter distância da própria solidão e da nossa inadequação.

Há, no entanto, perguntas verdadeiramente boas a serem formuladas sobre a realidade de Jesus Cristo. Se Deus é bom, por que estaria disposto a enviar algumas pessoas para o inferno? Como podemos dizer que o cristianismo é melhor que o hinduísmo? Por que as pessoas sofrem? Se a dedicação de nossas vidas a Deus verdadeiramente nos faz novas criaturas, como os cristãos muitas vezes parecem não ser melhores do que os de¬mais? Como colocar nossa confiança em um livro tão desprovi¬do de valor científico como a Bíblia? Há muitas outras.

Se você está tendo dúvidas intelectuais, tente elucidá-las até o fim. Pergunte a pessoas que provavelmente tenham respostas, e a muitas delas — não se satisfaça com uma ou duas. Peça por material de leitura. Pode levar algum tempo, mas uma vez que você está tentando decidir se a vida como cristão tem algum significado, deve tratar-se de questão que mereça um estudo sério. Se não for o caso, se você já estiver satisfeito com a informação de segunda mão alojada na mente, então duvido que você esteja sendo verdadeiramente honesto em seus questionamentos. Se abandonar sua fé, terá enganado a si mesmo. Se a mantiver, também terá se enganado: essas mesmas perguntas podem voltar, ou sua fé pode se tornar superficial, temerosa de confrontar dúvidas difíceis e de escutar com honestidade as perguntas que os não-cristãos estão fazendo.

Se você perguntar com honestidade e estiver disposto a pedir a Deus por ajuda, penso que encontrará respostas que o satisfaçam. E o que acontece comigo o tempo todo.
Penso que a maioria das pessoas começa com o cristianismo e só gradualmente passa a conhecer Cristo. Somos primei¬ro atraídos por um grupo de pessoas, um modo de vida, um líder ou um amigo em que confiamos.

Mas de quem não posso me livrar, mesmo quando estou infeliz, é do homem conhecido como Jesus. Ele é impressionante. Quanto mais aprendo sobre ele, mais maravilhado fico. Ele é a resposta final a todas minhas dúvidas.

Você tem de ler sobre ele. Na verdade, não há outra maneira completamente confiável de saber sobre ele. Quatro panfletos dão registros razoavelmente detalhados de sua vida sobre a terra, quando seu caráter revestiu-se de um foco visível. Não é por acaso que o Novo Testamento começa com eles: Mateus, Marcos, Lucas e João. Eles são básicos.

O que encontro nestes quatro registros sobre Jesus? Encontro camada após camada de significado: simplicidade — posso entender o texto na primeira leitura e encontrar nele uma riqueza que a maior de todas as mentes jamais esgota. Encontro um retrato convincente do único Homem por quem eu pensaria em dar a vida.

Eu poderia falar sobre muitos aspectos de Jesus e sobre por que ele me atrai. Mas vou me limitar a dizer uma única coisa que sempre me impressiona a respeito dele. Jesus é o único homem completamente livre que eu jamais encontrei.

Eu quero muito ser livre. Não quero estar aprisionado a coisa alguma. Quero voar livre como um falcão planando no vento. Em Jesus encontro um modelo daquilo que quero me tornar.

A liberdade de Jesus fluía de sua identidade como Filho de Deus. Ele mantinha contato; ele se lembrava de quem era em relação a Deus. As pressões não podiam amoldá-lo, porque Deus não mudava em seu amor e em sua promessa de guardá-lo. Nem mesmo a morte poderia mudar quem ele era — e é.

Suas dúvidas podem, em muitas ocasiões, levá-lo a uma compreensão mais profunda de Deus, pois as respostas dele raramente serão do tipo que você estava esperando. Se suas convicções são superficiais, elas terão de ser tratadas com mais profundidade. Se o esqueleto de sua fé se curvou, os ossos talvez tenham de ser quebrados antes de voltar à posição nor¬mal. E vai doer. Mas não tenha medo: ossos quebrados ficam mais fortes.

domingo, 21 de junho de 2009

De perdão em perdão


por Ariovaldo Ramos (www.irmaos.com)

Jo 4.13-26 – O diálogo! – Uma leitura!

Jesus: Eu sei que esse poço de Jacó é, em si, um milagre, mas quem beber dessa água tornará a ter sede, já, quem beber da água que lhe estou oferecendo, nunca mais terá sede. Essa água se tornará uma fonte, em si, a jorrar pela eternidade afora.

Samaritana: Me dá dessa água para que eu não tenha de vir mais aqui buscá-la. Ainda mais debaixo deste sol escaldante.

Ela estava com algum problema com sua comunidade e, por isso, não podia ir com as demais mulheres a buscar água, daí, tinha de vir no horário do almoço.
Parece que ela desconfiava de que Jesus, de fato, estava falando de algo, talvez de cunho espiritual. Sua pergunta forçava Jesus a deixar claro o que quer que fosse.

Jesus: Vá buscar o seu marido e volte, que eu lhe falo.
A impressão primeira é a de que Jesus está usando a lógica dos rabinos, de que só se pode comunicar a Palavra para os homens.
Parece, mas não o é, porque se esse raciocínio tivesse preponderado, nenhum diálogo haveria, desde o começo.

Samaritana: Eu não tenho marido.
Ao dizer isso, a mulher coloca Jesus numa situação critica: é como se ela lhe tivesse respondido – não tenho marido, se quiser falar comigo, tem de ser desse jeito mesmo.
E aí se revela a intenção de Jesus, a de manifestar-se.

Jesus: Você está certa, você já teve cinco maridos, mas este, com quem agora vive, não é seu marido. Você disse a verdade!

Samaritana: Vejo que você é profeta. Nossos pais disseram que deveríamos adorar a Deus neste lugar, e vocês dizem que devemos adorar em Jerusalém.
Tem-se a impressão de que ela está mudando de assunto, mas ela não o está. No contexto da época, adorar era ir até o Templo para oferecer um sacrifício que, uma vez aceito, obteria o perdão de Deus. Adorar era pedir perdão. O diálogo, portanto, ficaria assim:

Samaritana: Vejo que você é profeta. Eu sei que tenho de acertar isso com Deus, nossos pais disseram que era aqui que se pedia perdão a Deus, mas vocês dizem que é em Jerusalém que se deve pedir perdão. Onde se pede perdão a Deus?

Jesus: É em Jerusalém que se pede perdão a Deus, porque a salvação vem dos judeus, e nós adoramos o que conhecemos, e vocês adoram o que não conhecem. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores pedirão perdão ao Pai em todo o momento, em si mesmos, em todo o lugar, e serão perdoados. Porque são estes adoradores que o Pai procura, porque o Pai é Espírito, está em todo o lugar, e importa que aqueles que reconhecem a Sua honra lhe peçam perdão em todo o tempo.

Samaritana: Quer dizer que eu posso pedir perdão em qualquer lugar, a qualquer hora? Mas, e o Templo?

Jesus: O Templo é você.

Samaritana: Então Deus pretende mudar de endereço, e, agora, quer morar nas pessoas?

Jesus: Exatamente, Deus é Espírito e quer morar no espírito das pessoas.

Samaritana: Mas, e o holocausto, o sacrifício?

Jesus: O sacrifício sou eu.

Samaritana: Bem, o que você está dizendo é muito diferente. Eu estou aguardando o Messias, o Salvador, quando ele vier nos explicará todas as coisas.

Jesus: Eu sou o Messias. Eu sabia que você estava me esperando e vim vê-la. Eu marquei esse encontro com você.

Adorar a Deus é pedir perdão. Tudo o que dizemos a Deus é insuficiente para honrá-lo. Mas quando lhe pedimos perdão, o adoramos, porque admitimos que Ele está certo, não nós. E lhe pedimos perdão, não apenas por nossos desvios morais, mas por nosso jeito de ser e de viver.

Os do Antigo Testamento esperavam o fim de semana para prestar culto, para pedir perdão, reconhecendo que Deus estava certo. Honrando-o, portanto. E só podiam fazê-lo no Templo de Jerusalém. Os do Novo Testamento têm Deus morando em si, por isso podem, a qualquer hora, honrá-lo com o seu pedido de perdão. Passam toda a semana em culto, e usam o final de semana para, com os demais Templos de Deus, celebrar a semana de culto. Os do Antigo Testamento partiam de seu pecado para o Templo, onde ofereceriam o sacrifício, que, uma vez aceito, lhes garantiria o perdão. Os do Novo Testamento partem do holocausto aceito previamente e para sempre – o sacrifício de Jesus, o Cordeiro de Deus, para o pedido de perdão, na certeza de que ao confessarem os seus pecados, Deus, fiel ao sacrifício, e reconhecendo que a justiça foi, no sacrifício, satisfeita, perdoará e tornará puro o pecador, como se ele não houvesse pecado (1 Jo 1:9).

O pedido de perdão é precedido por arrependimento. De perdão em perdão, somos transformados em pessoas parecidas com Jesus, porque o Espírito Santo vai nos revelando onde estamos desonrando a Deus e, então, a partir de nosso arrependimento e consequente pedido de perdão, Ele nos transforma à imagem do Senhor (2 Co 3.18).

domingo, 14 de junho de 2009

O Melhor Ator Coadjuvante

por Harold Kushner

(trechos do livro – Que tipo de pessoa você quer ser? de Harold S. Kushner)

Todos os anos, em una noite do final do mês de Março, milhões de pessoas ficam acordadas até tarde para assistir à entrega do Oscar. As cobiçadas estatuetas são concedidas ao melhor diretor, ao melhor ator e à melhor atriz, ao melhor filme e ao melhor profissional de várias outras categorias, entre as quais as de ator e atriz coadjuvantes.

A categoria dos coadjuvantes sempre me deixou intrigado. Não sei como é dirigir um filme. Não tenho a menor idéia do que é preciso para compor uma partitura musical ou desenhar o guarda-roupa dos artistas. No entanto, eu conheço a sensação e acho que todos conhecemos - de ser um ator coadjuvante no filme de outras pessoas, de não estar na berlinda e sim fazendo coisas que dão forma ao enredo e o impulsionam. Uma amiga está fazendo quimioterapia porque está com câncer; nós a visitamos, preparamos uma refeição para ela e a acompanhamos a uma consulta. A vida dela é um drama, uma luta de vida ou morte. Nós estamos em segundo plano, fazendo o possível para que tudo termine bem. Nossa igreja ou sinagoga assume o compromisso de trabalhar com os pobres e abandonados. Não estamos preparados para deixar nossa família e partir para o Haití ou para a África, mas prestamos contribuição para que outras pessoas possam ir. Podemos desejar ardentementeser o astro ou estrela da nossa vida, porém quase ninguém consegue atingir essa posição. Outros atuarão no centro da trama e nós estaremos no papel coadjuvante, fazendo coisas importantes acontecerem.

A Dra. Rachel Naomi Remen conta una história verdadeira sobre um de seus pacientes, George que recebeu o diagnóstico de que tinha câncer de cólon e foi informado que sua expectativa de vida era de apenas poucos meses. Ele chorou no consultorio dela porque achava que havia desperdiçado a vida e agora era tarde demais para mudar as coisas. Cientista e inventor, ele ganhara muito dinheiro desenvolvendo e comercializando aparelhos médicos, mas tinha se dedicado demais ao trabalho e negligenciado a família. Casara-se duas vezes e estava afastado das duas mulheres e de vários filhos adultos. Diante da perspectiva de morrer sozinho, sem que ninguém chorasse sua perda, o homem se lamentou: “que idiota eu fui. Eu só pensava em ganhar dinheiro e vou acabar deixando tudo que ganhei para um bando de pessoas que nem mesmo gostam de mim”.

Um dos aparelhos que ele criara, sua invenção mais lucrativa, ajudava portadores de uma doença crônica a viver uma vida praticamente normal. Por coincidência, a Dra. Remen tinha uma jovem paciente que sofria daquela enfermidade e usava o o aparelho. Graças ao equipamento, a moça pôde trabalhar, casar-se e formar uma família. Quando a Dra. Remen lhe contou que conhecia o inventor do aparelho, a paciente ficou pasma e muito entusiasmada. Ela perguntou se podería conhecê-lo. Em um jantar elegante os parentes da moça, que a tinham ajudado durante a doença e a visto retomar sua vida normal falaram da importância da invenção de George na vida deles. George, que havia chorado no consultorio da médica poucos dias antes, chorou de novo naquela noite por um motivo muito diferente.

Quando ficamos preocupados achando que nossa vida está passando num cortejo de trivialidades e eventos insignificantes, quando desejamos ardentemente fazer coisas que tenham importância e nos consideramos fracassados por que não concretizamos nada disso, a melhor maneira de nos livrarmos desse estado de espiríto é encontrar alguém que precise da nossa ajuda, [e nos tornarmos um coadjuvante em sua vida].

Um individuo comum pode de fato mudar as coisas? Será que nós, no nosso anonimato, somos capazes de interferir na História? Raramente conseguimos mover montanhas e mudar o curso dos acontecimentos através do que fazemos sozinhos. No entanto, na qualidade de membros de uma comunidade dedicada à bondade, agindo como pessoas bondosas e praticando boas ações, somos capazes de mudar o mundo. Podemos ter importância.

Saber que somos importantes para Deus faz com que uma parte considerável das nossas dúvidas e dos nossos receios desapareçam. Não temos que descobrir a cura do câncer para fazer diferença para o mundo e não precisamos escrever grandes romances para que Deus repare em nós. Basta compartilharmos nossa vida com outras pessoas e escolhermos a produtividade em vez da estagnação. Como disse Madre Teresa de Calcutá: “Poucos entre nós podem fazer grandes coisas, mas todos podemos fazer pequenas coisas com muito amor”. Somos o elenco coadjuvante em um espetáculo magnífico e contínuo, e é um intestimável privilégio fazer parte dele.
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