sábado, 28 de maio de 2011

Deus de perguntas



Por Dawn Zemke

Algumas vezes o inexplicável lado de Deus me deixa louca, porque frequentemente não entendo o motivo dele permitir algumas coisas.

Algumas vezes exponho os mistérios de Deus. Que ele sempre existiu e sempre vai existir. Que ele é Pai, Filho, Espírito Santo, três em um. Que ele criou nosso incrível planeta – oceanos, montanhas, desertos e uma inacreditável variedade de vida selvagem, para não mencionar as pessoas. Como embrulho meu cérebro em volta de tudo isso? Sinto uma indefinível e enigmática parte da natureza de Deus me mandando um calafrio abaixo da espinha e me lembrando como verdadeiramente ele é grande - e como abençoada sou porque ele não somente toma conta de mim, mas me conhece intimamente.

Algumas vezes, entretanto, esse mistificante e inexplicável lado de Deus me deixa louca, porque frequentemente não entendo o motivo dele permitir algumas coisas. Por que maravilhosos e amorosos casais permanecem sem filhos e outros concebem e jogam fora bebês sem uma boa razão? Por que um homem que nunca tocou um cigarro morre de câncer de pulmão enquanto um fumante de dois maços por dia vive até uma idade mais avançada? E por que uma mulher bondosa e fiel como minha mãe deve esperar a morte do marido e a da filha pequena enquanto outras pessoas permanecem intocáveis por tragédias durante toda a vida?

Eu sei, eu sei - nós estamos vivendo em um mundo caído, experimentando a consequência do seu pecado. Eu reconheço que Deus está sempre no controle, mesmo quando sinto como se ele tivesse perdido a equação. E acredito em sua promessa que o seu plano é “prosperar e não danificar, planos de me dar esperança e um futuro” (Jeremias 29:11).

Isso não significa que eu tenha que gostar disso. E definitivamente não significa que eu não experimento momentos de dúvida, quando eu grito, “Por que Deus? Como você pode? O que você estava pensando?”

Eu costumo me sentir culpada por alguns pensamentos. Depois de tudo, Deus é... Deus. Seus caminhos são além da minha compreensão, certo? É meu trabalho como sua filha ter uma fé inabalável Nele. Acreditar sem questionar.

Ou talvez não.

No capítulo 11 do seu evangelho, João conta a história de Jesus ressuscitando seu amigo Lázaro. Por anos eu me fixei no milagre - Jesus trouxe o homem da morte - e nunca noticiei o drama por trás das cenas.

João nos conta que Jesus amou Lázaro e suas duas irmãs, Maria e Marta. Quando recebeu a notícia que Lázaro estava doente, ele não correu para lá. Na verdade, ele esperou dois dias inteiros antes de pegar a estrada. Quando chegou à cidade de Lázaro, o homem já estava morto há quatro dias.

Agora aqui é onde a história fica interessante. Quando a notícia que Jesus estava perto chegou, Marta foi ao seu encontro. Mas não Maria. Essa mulher que amava muito Jesus, que comprou um perfume caro para pôr em seus pés e secou-os com seus cabelos, ficou em casa. Jesus teve que perguntar por Maria. E mesmo que ela tenha respondido imediatamente ao seu chamado, suas primeiras palavras me falam sobre o estado da sua mente : “Senhor, se você estivesse aqui, meu irmão não teria morrido” (João 11:32). Em outras palavras “Como você pode levar tanto tempo para chegar aqui, Jesus? O quê você estava pensando?”

Eu então me identifico com Maria, porque estaria fazendo a mesma pergunta. Como deve ter sido terrível para ela, assistindo seu irmão ficar cada vez mais doente, e finalmente morrer, e Jesus nunca vir. Falei sobre se sentir desapontada.

O que eu realmente amo nessa história, entretanto, é a reação de Jesus. Ele é profundamente movido pelo desgosto de Maria. E ele ressuscita Lázaro. O que ele não faz é desprezá-la por seus questionamentos.

E isso traz conforto para meu coração duvidoso e questionador. Como Jesus entendeu a questão de Maria, eu acredito que ele entende a minha. Depois de tudo, ele me criou e me conhece - como diz o Salmo 139 - ele “percebe os meus pensamentos de longe”.

Eu tenho acreditado cada vez mais que enquanto Deus quer minha obediência, ele não requer que eu dê isso sem pensar. Como algum bom pai, ele ouve pacientemente minha questões e faz o melhor para respondê-las. E como qualquer criança, eu não vou ter sempre habilidade para entender essas respostas.

Mas, olhando para a Bíblia, estou em boa companhia. Moisés deu a Deus um período de sua vida antes de concordar em voltar ao Egito. Jonas não somente questionou o plano de Deus, como fugiu dele. E até Jesus, perfeitamente submisso à vontade do Pai, checou duas vezes para estar certo que não havia outra maneira de cumprir sua tarefa.

Algum dia eu vou trocar esse corpo finito por um infinito, e com isso eu vou ganhar entendimento completo do perfeito plano de Deus. Mas até esse dia vir, é bom saber que a paciência de Deus não irá acabar. Que ele não somente entende e aceita todas as minhas questões, ele me ama apesar delas.

Copyright © 2011 por Christianity Today International

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Como Deus cuida de mim



Ed René Kivitz

Que vantagem há em crer em Deus num mundo onde todos sofrem?

Letícia era uma mulher cheia de vida e entusiasmada com o evangelho recém descoberto. Ao final de 2004 me disse que queria ser batizada. Num sábado pela manhã, subiu em banquinho para arrumar a jardineira, e caiu do segundo andar de sua bela casa, falecendo logo em seguida, no Hospital.

Os amigos me disseram que nunca haviam visto o Flávio tão feliz como nesses dias. Três filhos cursando medicina e um feliz casamento, cheio de romance. Numa manhã de sábado, levantou-se para ir ao banheiro, e na volta para cama, desabou sob um infarto fulminante.

Marina tirou a sorte grande, diziam as amigas com uma certa dose de inveja. Conseguiu o marido dos sonhos: bonito, rico, bom caráter, e melhor de tudo, um cristão sério. Algumas diziam que merecia: bonita, séria com Deus e dedicada na Igreja (filha do Pastor), era uma menina sofrida - seu primeiro noivo, com quem teria se casado, faleceu. Agora estava feliz. Marcelo era o marido perfeito de um casamento perfeito que já durava 5 anos. Numa noite de quinta-feira Marina desconfiou de uma mensagem deixada no celular do marido, e no domingo seguinte estava sozinha. Marcelo confessou que a traía havia mais de 3 anos, e que agora estava apaixonado por uma namorada do trabalho, com quem estava se relacionando nos últimos 3 meses.

Acompanhei essas histórias (reais, porém com nomes fictícios) neste mês de fevereiro, logo após meu retorno das férias. Já não me espanto mais diante de notícias ruins, e infelizmente, desenvolvi um jeito de seguir em frente sem pensar muito em tudo o que vejo e vivencio no dia-a-dia da atividade pastoral. Faço minhas as palavras do Rabino Harold Kushner: "tenho muita dificuldade em dizer que a vida é bela e que Deus dá o que cada um merece e precisa. Inúmeras vezes deparei-me com famílias e até mesmo comunidades inteiras unidas em oração pela cura de um enfermo - e vi suas esperanças e orações serem completamente desprezadas. Vi pessoas "erradas" adoecerem, pessoas "erradas" serem brutalmente golpeadas pelo destino, jovens "errados" morrerem".

Há alguns anos minha mãe me presenteou com um pedaço de papel amarelado, onde alguém registrou minha primeira oração: "Papai do Céu, traz meu papai de volta para casa no Natal". Meu pai nunca voltou. Não comecei muito bem minha peregrinação pelos caminhos da oração e intercessão. Acho que meu pai foi um desses "jovens errados" referidos pelo Kushner.

Por essas e tantas outras, fui obrigado a re-significar o que me ensinaram a respeito de Deus e seus caminhos. Precisei buscar uma nova interpretação e compreensão para textos da Bíblia como:

Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos, pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite. É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera! [Salmo 1.1-3]

Pois no dia da adversidade ele me guardará protegido em sua habitação; no seu tabernáculo me esconderá e me porá em segurança sobre um rochedo. [Salmo 27.5]

Confie no Senhor e faça o bem; assim você habitará na terra e desfrutará segurança. [Salmo 37.3]

Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, descansa à sombra do Deus onipotente... Ele o livrará do laço do caçador e do veneno mortal. Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor. Você não temerá o pavor da noite, nem a flecha que voa de dia, nem a peste que se move sorrateira nas trevas, nem a praga que devasta ao meio-dia. Mil poderão cair ao seu lado, dez mil à sua direita, mas nada o atingirá. Se você fizer do Altíssimo o seu abrigo, do Senhor o seu refúgio, nenhum mal o atingirá, desgraça alguma chegará à sua tenda. Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos; com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra." [Salmo 91]

Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais! [Mateus 10.28-31]

Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre. [Hebreus 13.8]

O que se entende por "o justo prosperará em tudo"? Isso significa que o cristão tem o fator Deus como vantagem competitiva quando em um processo de seleção para novo emprego ou numa concorrência no mercado? Que tipo de segurança é prometida por Deus? De quais pragas, pestes e desgraças estão livres os filhos de Deus? O fato de Deus saber quantos fios de cabelo temos significa que Ele está cuidando de nós nos mínimos detalhes? E esse tal "consentimento", quer dizer que Deus fica de braços cruzados enquanto as coisas ruins nos acontecem?

Além destes poucos textos (escolhidos aleatoriamente à título de exemplo), precisei buscar melhores explicações para o casuísmo bíblico. Em primeiro lugar, me embaracei com as biografias bíblicas: devemos considerar os relacionamentos entre Deus e homens como Abraão, Moisés, Davi e Paulo como paradigmáticos para o nosso próprio relacionamento com Deus? Deus cuida de nós da mesma maneira como cuidou de José no Egito, Daniel na cova dos leões, e Pedro na prisão?

Em segundo lugar, o casuísmo bíblico registra milagres extraordinários protagonizados não apenas por Jesus, mas também pelos profetas e apóstolos. Alguém seria capaz de demonstrar que os milagres ocorrem hoje na mesma intensidade e volume que ocorriam no período bíblico? Podemos esperar que Deus cure nossos enfermos da mesma maneira que Jesus curava às margens do Mar da Galiléia, já que "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre"?

Enfim, a pergunta que usei como porta de entrada para meu processo de re-significação da minha fé foi: Como Deus cuida de mim? Encontrei pelo menos quatro respostas.

1. Deus cuida de mim interferindo em minhas circunstâncias. Mas, dificilmente, ou mais precisamente quase nunca, sei com certeza se o que me aconteceu ou deixou de acontecer foi resultado de uma ação direta de Deus. Ao ler na Bíblia que nenhum pardal cai no chão sem o consentimento de Deus, e que até mesmo os cabelos da nossa cabeça estão todos contados por Deus, de modo que não precisamos viver amedrontados [Mateus 10.29-31], assumo isso como verdade e relaxo. Creio que devo viver seguro de que nada acontece em minha vida sem que Deus tenha, no mínimo, permitido que acontecesse. Deus nunca é pego de surpresa a meu respeito, e nenhuma de minhas circunstâncias escapa ao seu controle. Não me ocupo em ficar procurando a mão de Deus ao meu redor. Não preciso explicar todos os fatos como causados por Deus, nem tento ficar espiritualizando e explicando tudo o que se passa comigo como "Deus fez isso, Deus não fez aquilo". Minha sensação é mais ou menos a do menino que quer brincar à beira do mar e ouve o pai dizer: "Pode ir, o papai vai ficar aqui olhando você". No meu caso é assim: corro em direção à água e brinco despreocupado. Sei que meu Pai está olhando por mim, e que em qualquer eventualidade Ele não apenas saberá o que fazer, como também terá poder para fazer. Confio que Ele fará o melhor, pois além de sábio e poderoso, meu Pai tem mais uma característica: Ele me ama

2. Deus cuida de mim capacitando-me para enfrentar qualquer situação. É desta maneira que interpreto "tudo posso naquele que me fortalece" [Filipenses 4.13]. Esse "tudo posso" não diz respeito a passar no vestibular, ganhar um emprego, arrumar uma namorada, ou qualquer outra coisa a respeito da manipulação das minhas circunstâncias. "Tudo posso" significa que "aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura" [Filipenses 4.12]. Caso interpretássemos o "tudo posso" da maneira tradicional: "posso conseguir tudo o que quero", não teríamos como explicar porque o mesmo Paulo, apóstolo, não conseguiu se livrar de seu "espinho na carne". Nesse caso, o "tudo posso" significa "posso conviver com um espinho na carne", pois a graça de Deus é suficiente para me manter em pé e saudável mesmo convivendo com um espinho na carne, pois "o poder de Deus me faz forte" [2Coríntios 12.7-10].

3. Deus cuida de mim cooperando comigo para dar significado positivo a todas as minhas circunstâncias, inclusive para transformar em bem o mal que veio contra mim. O ensino bíblico que promete que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" deve ser interpretado à luz de duas observações. Em primeiro lugar, o "bem" prometido não é circunstancial, isto é, "Deus impede você de ganhar 1.000 porque Ele quer lhe dar 100.000". O conceito que Deus tem de "bem" é fazer de mim alguém semelhante ao filho dEle, para que Jesus seja o primogênito dentre muitos irmãos. Mas em segundo lugar, a promessa de que todas as coisas cooperam para o bem", geralmente compreendida como "Deus manipula todas as circunstâncias para que seus filhos sejam favorecidos no final" pode e deve ser interpretada de outra maneira, como, por exemplo, sugere a nota de rodapé da Bíblia Nova Versão Internacional: "Sabemos que em todas as coisas Deus coopera juntamente com aqueles que o amam, para trazer à existência o que é bom" [Romanos 8.28,29]. Essa tradução apresenta Deus, não como um solucionador de problemas ou manipulador de circunstâncias, mas como parceiro dos seus filhos, ocupado em conduzí-los à maturidade e torná-los capazes de andar com suas próprias pernas mesmo em situações difíceis e dias maus. Creio que esta é a experiência de Davi: "Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem" [Salmo 23.4], e também a convicção de José, no Egito: "vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem" [Gênesis 50.20]. Creio que por trás da minha história, Deus está escrevendo a dEle, e que em alguns momentos, mesmo o mal que me acontece, é usado por Deus para o meu bem.

4. Finalmente, Deus cuida de mim preservando minha integridade espiritual. Sei que o ser humano é uma unidade indivisível corpo+espírito, mas mesmo assim escolho a palavra "espiritual" para expressar a idéia de que o mal pode tocar meu corpo, meus bens, minhas circunstâncias, mas não pode causar nenhum dano em meu relacionamento com Deus ou abalar minha identidade mais profunda, que a Bíblia chama de "homem interior" [2Coríntios 4.16-18], a menos que eu permita. Nesse sentido é que todos os cristãos somos mais do que vencedores, pois sabemos que "nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" [Romanos 8.38,39].

Essa "proteção espiritual" é o real significado do Salmo 91, por sinal um Salmo messiânico, que promete que Jesus "pisará o leão e a cobra; pisoteará o leão forte e a serpente" [Salmo 91.13]. Por isso João, apóstolo, expressou sua convicção que "todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge" [1João 5.18].

Destas maneiras creio que Deus cuida de mim: interferindo em minhas circunstâncias, dando-me condições de viver bem em qualquer situação, cooperando comigo para extrair o bem de tudo o que me acontece, e cerceando todo o poder do mal contra mim, de modo que nosso relacionamento de amor jamais seja abalado.

Gosto de Viktor Frankl quando diz que "se a situação é boa, desfrute-a; se a situação é ruim, transforme-a; se a situação não pode ser transformada, transforme-se". Isto é, quando amanhece chovendo, e Deus, em sua perfeita economia, decide não atender meu pedido por sol, eu saio na chuva mesmo. Ultimamente, para falar a verdade, quando amanhece chovendo, eu fico um bom tempo na janela tentando perceber de Deus se o melhor que poderia acontecer não seria a chuva. Já aprendi que não vim ao mundo para fazer pic-nic.

sábado, 14 de maio de 2011

Uma história por trás da história


Por Marcos Feitosa


(Lucas 17:11-19)

Ah, o senhor é o doutor que anda ouvindo as histórias da pessoas que estiveram com Jesus de Nazaré?!… Lucas, não é? Me falaram do senhor. Sim, eu estive com ele.

Sim, é também verdade: fui leproso. Vivia isolado de todos. Mas o que mais me doía era estar distante de minha esposa e filha. Sabe, eu amo minha família. Eu e minha esposa vivemos durante muito tempo sem filhos. Quase dez anos. Fizemos de tudo: tomamos ervas, fomos uma vez a Jerusalém pedir ao sumo-sacerdote uma benção especial. Fazíamos promessas e nada.

Até que um dia escutei numa sinagoga a história de Ana. Ouví que quando uma pessoa abre o coração a Deus e conta seus problemas ele ouve a oração do aflito. Seguimos o exemplo de Ana. Minha esposa me diz que naquela mesma noite ela concebeu. Eu não entendo estas coisas de mulher, mas acredito nela.

O senhor não sabe com que alegria vivemos os nove meses antes do nascimento de nossa filha. Eu confesso que esperava um filho, mas quando ví Rebecca, a amei imediatamente. Eu a ví crescer, dar os primeiros passos, o primeiro sorriso. O senhor não tem idéia da alegria que sentí quando a ouví chamar “papai” pela primeira vez.

E de repente, a tragédia.

As manchas. Eu não acreditava: aquilo não podia estar acontecendo comigo. Mas estava. Daí em diante foi uma tristeza só. Confirmada a lepra, fui pronunciado impuro e tive que afastar-me da minha família. Minha filha, ainda pequena, não entendeu porque o pai se afastava. Aquilo me destroçava o coração.

Muita vezes, no início, eu passava pela porta de minha casa só com a esperança de ver minha filha. Até que os vizinhos descobriram e aí ficou impossível.

Comecei a viver só. Mas a vida solitária é muito difícil. Fui viver com os outros leprosos numa caverna nos arrebaldes da cidade. Eu era o único samaritano, mas na desgraça, eles não se importaram muito. O senhor não tem idéia de como é ser leproso. Minha vida de homem havia cessado, a menos que me envolvesse com uma leprosa, e isso eu não queria. Minha esposa vinha ver-me constantemente, até que eu a proibí de acercar-se. Uma vez por mês ela vinha e trazia minha filha e eu as via de longe. Aqueles eram os melhores e piores momentos de minha vida.

Depois de uns cinco anos leproso, a gente perde a esperança. Depois de dez, só resta esperar a morte. Eu vegetava, esperava morrer.

Até que nos falaram dele.

Diziam que ele ensinava maravilhosamente. Comentavam que ele tinha curado pessoas. Comentavam até que tinha ressuscitado mortos. Fomos, eu e meus companheiros uma vez ouví-lo. O que me impressionou nele foi sua voz, calma e firme.

Creio que o escutá-lo, aliado às conversas sobre suas curas, fez nascer em mim algo morto há muito tempo: a esperança. Decidí ir procurá-lo e outros se juntaram a mim.

Éramos dez. Isso nos dava segurança. Fomos pelas trilhas nas montanhas porque soubemos que ele estava indo na direção de Jerusalém. Paramos numa aldeia chamada Sidon.

Dois dias depois ele chegou. Ficamos numa pequena elevação na margem do caminho de entrada na aldeia. Uma pequena multidão o seguia. Aí algo muito forte tomou conta de mim e sentí que poderia ser curado. Então comecei a gritar o mais alto que podia o que costumava dizer nas minhas orações a Deus no início da lepra. Não achei que estivesse blasfemando. Ele poderia ser o Mashiah, por que não? Gritei: “Jesus, filho de Daví, tem misericórdia de nós!” Os outros companheiros pararam e me olharam e talvez porque eu disse “nós” em vez de “mim”, todos se uniram a passaram a gritar em uníssono o mesmo que eu.

Alguns se viraram para ver o que era. E aí ele nos viu. Os meus amigos me disseram que não perceberam, mas estou certo que o ví sorrir. E lá de baixo, ele nos falou. Para nossa frustração, ele simplesmente disse que devíamos nos mostrar aos sacerdotes. “Para que?” disseram meus companheiros, “Para que nos pronunciem impuros outra vez?” Caminhamos de volta, tristes. E de repente, veio à minha mente que havia uma outra razão para um leproso se apresentar aos sacerdotes: quando estivesse limpo!

Falei isso aos outros com tanto entusiasmo que resolvemos caminhar na direção de Jerusalém. Foi aí que algo extraordinário aconteceu. Sabe, lepra não é algo que só os outros percebem. A gente sente também. Uma ausência na periferia do corpo, uma espécie de sentir que não sentimos. E de repente, sentí meus dedos, minha pele, o contato da roupa, a consciência do meu corpo. Ai, que sentimento, doutor!… A sensação de estar outra vez em casa, de estar no corpo da gente…

Olhei para minhas mão e gritei: “Estou curado!”. Os outros fizeram o mesmo. Aí foi uma festa. Saímos todos em desabalada carreira na direção de nossas casas. Eu só pensava em minha esposa e filha.

E de repente um pensamento. A alegria de voltar à minha casa depois de treze anos, só fora possível por causa do Nazareno. Só Deus podia dar presente desta ordem. E aí, por mais que eu morresse de vontade de ver minha família, tinha de agradecer-lhe. Voltei para a aldeia.

E ao entrar, logo o ví. Ninguém mais precisava me dizer quem ele era. Era mesmo o Mashiah. Cheguei junto dele e me prostrei. Nem me importei com as pessoas. Ele me sorriu e pondo suas mãos sobre minha cabeça, perguntou onde estavam os outros. Respondí. E ele se voltando disse que só eu, um samaritano, tinha voltado para agradecer-lhe. Toque e reconhecimento público. Foi demais para um dia só. Ele me disse que minha fé me salvara. Eu sabia, sentia isso.

Não sei se minha história interessa ao Senhor, doutor Lucas, mas escreva isso. Minha vida e a de minha família não são mais as mesmas depois que o encontrei. E olhe: se o senhor quiser saber mais o que aconteceu depois, e do que significou sua presença entre nós, apareça hoje à noite aqui na minha casa.
Como?! Mesmo?! O senhor também é seguidor dele? Então me dê lá um abraço!

sábado, 7 de maio de 2011

Retrato de Mãe

Por Don Ramón Angel Jara

Uma Simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus; e pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo; que, sendo moça pensa como uma anciã e, sendo velha , age com as forças todas da juventude; quando ignorante, melhor que qualquer sábio desvenda os segredos da vida e, quando sábia, assume a simplicidade das crianças; pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama, e, rica, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos;
forte, entretanto estremece ao choro de uma criancinha, e, fraca, entretanto se alteia com a bravura dos leões; viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, morta tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para vê-la de novo, e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios.

Não exijam de mim que diga o nome desta mulher se não quiserem que ensope de lágrimas este álbum: porque eu a vi passar no meu caminho.

Quando crescerem seus filhos, leiam para eles esta página: eles lhes cobrirão de beijos a fronte; e dirão que um pobre viandante, em troca da suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato de sua própria Mãe.
(Tradução de Guilherme de Almeida)

Autor: Don Ramon Angel Jara – Bispo de La Serena -Chile

Monseñor Ramón Ángel Jara [1] nació en Santiago de Chile el 2 de agosto de 1852. Comenzó sus estudios con los padres franceses en el Colegio de los Sagrados Corazones de Valdivia y en 1862 se incorporó al seminario conciliar de Santiago, donde alcanzó el grado de bachiller en humanidades. Posteriormente ingresó en la Universidad de Chile para seguir la carrera de leyes, pero en 1874 abandonó dicha carrera porque decidió ser sacerdote. Recibió la ordenación sacerdotal el 16 de setiembre de 1876. Llegó a ser el quinto obispo de San Carlos de Ancud y también el quinto obispo de La Serena. Se distinguió por su gran elocuencia, lo cual le valió los títulos de “primer orador eclesiástico de Chile”, “primer orador católico del siglo”, “cisne de la elocuencia sagrada” y “el Crisóstomo chileno”. Falleció en la ciudad de Serena el 9 de marzo de 1917 siendo sepultado en la catedral diocesana.

O lugar da mãe no afeto humano

por Leonardo Boff

NOTA: O discurso feminista e transcultural questionou a figura da mãe, mostrando suas várias concepções nas diferentes tradições da humaniidade. E foi bom que assim fizeram pois libertaram a figura da mãe de certos esteriótipos. Mas a mãe é mais que tudo isso. É um dos arquétipos fundamentais formadores da identidade de cada pessoa. Essa força criadora foi bem expressa por uma mulher africana que, a propósito do dia mães, me permito traduzir do alemão e publicar neste espaço, até como homenagem de afeto a nossas mães: LB

No dia das mães não fala a inteligência analítica mas a inteligência cordial. Logico, o comércio explora esse dia, mas o significado da figura da mãe é tão poderoso que não se deixa nunca desvirtuar totalmente. É excusado sublinhar a importância da mãe na orientação futura da vida de uma criança. Baste-nos referir as constribuições inestimáveis de Jean Piaget com sua psicologia e pedagogia evolutiva e principalmente as de Donald Winnicott com sua pediatria combinada com psicanálise infantil. Eles nos detalharam os complexos percursos da psiqué infantil nesses momentos iniciais e seminais da vida.

Hoje não cabe esse tipo de reflexão por mais importante que seja. Tem seu lugar o afeto cujas raizes ancestrais se encontram há mais de cem milhões de anos, quando no processo da evolução se formou o cérebro límbico, próprio dos mamíferos, dos quais nós descendemos. Com eles nos vieram os sentimentos do amor, do afeto e do cuidado, guardados como informações até os dias atuais em nosso código genético. Entreguemo-nos brevemente à terna energia do afeto.

Há muitos textos conhecidos que exaltam a figura da mãe como o belíssimo do bispo chileno Ramon Jara. Mas há um outro de grande beleza e verdade que nos vem de África, de uma nobre abissínia, recolhido como prefácio ao livro “Introdução à essência da mitologia” (1941), escrito por dois grandes mestres na área: Charles Kerény e Carl Gustav Jung. Assim fala uma mulher em nome de todas as mães.

“Como pode saber um homem o que é uma mulher? A vida da mulher é inteiremante diferente daquela dos homens. Deus a fez assim. O homem fica o mesmo, do tempo de sua circuncisão até o seu declínio. Ele é o mesmo antes e depois de ter encontrado, pela primeira vez, uma mulher. O dia, porém, em que a mulher conheceu seu primeiro amor, sua vida se divide em duas partes. Neste dia ela se torna outra. Antes do primeiro amor, o homem é igual ao que era antes. A mulher, a partir do dia de seu primeiro amor, é outra. E assim permanecerá a vida toda.

O homem passa uma noite com uma mulher e depois vai embora. Sua vida e seu corpo são sempre os mesmos. A mulher, porém, concebe. Como mãe, ela é diferente da mulher que não é mãe. Pois, ela carrega em seu corpo, por nove meses, as consequências de uma noite. Algo cresce em sua vida e de sua vida jamais desaparecerá. Pois ela é mãe. E permanecerá mãe, mesmo quando a criança ou todas as crianças tiverem que morrer. Pois ela carregou a criança em seu coração. Mesmo depois que ela nasceu, continua a carregá-la em seu coração. E de seu coração não sairá jamais. Mesmo que a criança tenha morrido”.

“Tudo isso o homem não conhece. Ele não sabe nada disso. Ele não conhece a diferença entre o “antes do amor” e o “depois do amor”, entre antes da maternidade e depois da maternidade. Ele não pode conhecer. Só uma mulher pode saber e falar sobre isso. É por isso que nós mães nunca nos deixamos persuadir por nossos maridos. A mulher pode somente uma coisa. Ela pode cuidar dela mesma. Ela pode se conservar decentemente. Ela deve ser o que a sua natureza é. Ela deve ser sempre menina e mãe. Antes de cada amor é menina. Depois de cada amor é mãe. Nisso poderás saber se ela é uma boa mulher ou não”.

Essas reflexões são dedicadas às mães vivas ou falecidas que no dia das mães lembramos com afeto. Elas estão em nossos corações. E de lá jamais sairão.
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