segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Terá valido a pena o Natal?

por Israel Belo de Azevedo

Se houve no plano internacional
um tempo em que as armas repousaram inúteis.
Se também no plano pessoal
meu coração tiver descansado
de tantas batalhas: as necessárias e as fúteis.

Se diante do presépio tão surreal
que mistura gente com animal todo falante
eu tiver tido uma atitude de humildade tal
como se nada, nada mesmo, dependesse
dos joelhos que se vergam
por um instante.

Se minha alma elevou ao sideral
para um canto que me soou como divinal louvor.
Se meus olhos viram como igual
aquele que na esquina e no chão gelado
de mim não esperava palavras mas amor.

Se meus múltiplos desejos de “feliz natal”
forem inspirados de modo real
por Jesus Cristo
e eu recebi cada gesto facial
e ofereci todo sorriso trocado
mesmo expressos na superfície
como um compromisso.

Se o Salvador por um momento
se pareceu como o que é:
meu Senhor companheiro amigo.
Se todo o verbo que eu dito tiver
for uma afirmação de fé
que por um dia habite comigo

terá valido a pena mais este Natal.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Uma história de Natal

por Israel Belo de Azevedo

Príncipe tem cara de príncipe.
Rei tem aquele jeito de rei.
Não o meu, da história que contarei.

Príncipe nasce em palácio.
Tem um lindo berço de ouro o rei.
Não o meu, na história que contarei.

Se eu nascesse onde Ele nasceu
a ninguém eu contaria.
E você também não diria
se nascesse onde Ele seu primeiro choro deu.

Nosso príncipe, depois, quando saiu de casa,
para fazer o que tinha que fazer,
não tinha cama, mas seu pai era carpinteiro
e, quantas camas quisesse, podia fazer
e quando tinha cama, não tinha travesseiro.
“Ai que saudade da mamãe”, devia Ele dizer,
pois ela tudo cuidava com todo esmero.

Mas quero falar mesmo do príncipe pequeno
Não do príncipe já crescido, mas do infante.
Preciso começar com a história de sua mãe
que começa com a história de um anjo falante.

Ela estava em casa. Todos tinham saído.
Ela estava no seu quarto. Ai que silêncio.
Então, o anjo de boas notícias se aproximou.
Eu disse o nome dele? Então, vá: Gabriel.
Maria pensou que fosse um castigo do céu,
mas do céu sempre vem notícias para o nosso bem.
E desta vez não foi diferente, e o anjo falou
que, para a alegria de todos, ela teria um neném,
porque para Deus não existe a palavra “impossível”.
Falou e se foi, deixando a moça cantando
feliz por aquilo que do anjo escutou.

E grávida ela ficou. Perto do neném nascer,
a barriga pesando, uma viagem tiveram que fazer
a mãe montada num jumentinho, saindo de Nazaré,
para ordens do governo obedecer.

José foi junto. Não fugiu à responsabilidade
Chegaram os dois, quer dizer os três,
a Belém – este é o nome da cidade –
só para entregar seus documentos de identidade.

A cidade estava cheia, com tanto turista
por causa da ordem que o governo tinha dado.
José bateu em muitas portas,
umas com placas certas e outras com placas tortas
em busca de um lugar para se hospedar
E diante de cada um tinha sempre que escutar:
– Desculpe, amigo, nosso hotel está lotado.

Foi quando viram uma placa de hotel simplezinho
e entraram, como se fossem descansar.
Simpático, o moço daquela estrebaria
disse que vaga pros dois também não havia.

Apareceu uma mulher, vendo a difícil situação
e chamou os dois para os fundos da pensão,
onde os animais ficavam perto de uma manjedoura
que podia servir de berço se não importassem
com a condição,
quando do nascimento do filho mais velho
chegasse a hora.

Eles cumpriram com o seu dever,
mas Maria estava pesada para voltar a Nazaré.
Podia ser perigoso para o bebê.

Resolveram esperar em Belém.
Maria começou a sentir as dores que as mulheres têm.
Ela gemeu:
– Ai, José, a hora está para chegar.
Não seria melhor um hospital procurar?
Mas naquela cidade não havia hospital.

E rápido atravessaram o esperado portal
da única estrebaria em que puderam se hospedar.

José reclamou, enquanto Maria gemia:
– Meu filho não pode mais aguardar.
Ele vai nascer aqui mesmo nesta portaria
e uma cama pra ele temos que arranjar.

E rápido arrumou as roupas no chão
porque não havia mesmo outra solução.

E a dor aumentava, aumentava, aumentava.
Maria pensou nas palavras de Gabriel:
onde estava o anjo que não a ajudava?

Fizeram o melhor que puderam e Maria descansou,
mas foi por alguns minutos, pois a dor aumentou.
Maria em silêncio. Ela chorou de medo e dor.
Mas de novo se lembrou do que o anjo lhe falou.
José segurou as suas mãos. A mulher ajudou.
Era noite e o silêncio quase nada durou.
De repente, um choro alto se escutou.
– É um menino – José mais alto gritou.
Então, agora de alegria, Maria novamente chorou.
E das palavras do anjo Maria outra vez recordou.

E assim, olhando para o menino no
colo, adormeceu.
Depois da agitação, a calma se restabeleceu.
E o silêncio voltou.
Os animais se calaram.
O porteiro cochilava.
José, porém, a tudo vigiava.

De repente, lá fora a correria.
Acabou a calma na estrebaria.
Parece que a noite virou dia.
José acordou Maria.
– Estou ouvindo uma gritaria.
Parecem pastores, mas o que aqui fariam?

Entrou o homem da portaria,
pedindo se podiam chegar os visitantes.
– Quem são? – perguntou José, hesitante.
– São os guardas dos animais do campo.
Querem ver o menino que nasceu há instantes.

Maria se lembrou do anjo Gabriel:
– Deixem que entrem para ver o menino.

Entraram com as roupas cobertas de neblina.
Ficaram encantados. Tudo conferia com a voz do céu.

Voz do céu. Que voz do céu? Não custa perguntar.
José perguntou:
– Como souberam que meu filho nasceu?

Um deles logo respondeu, porque era o mais agitado:
– Ouvimos uma voz do céu, que dizia:
“Hoje em Belém finalmente nasceu o Messias.
Ele está numa manjedoura agora deitado”.
Depois um coro de anjos deixou uma canção:
“Nas alturas dêem a Deus toda a glória,
e na terra anunciem de todo o coração
a paz que Ele quer que alcance a história”.

Depois da visita, todos saíram. Eles gritavam.
As palavras do anjo ainda ecoavam
porque todas se confirmavam.
É por isto que “glórias a Deus” davam
e pelas ruas a sua alegria cantavam.

Enquanto José em tudo prestava atenção,
Maria tudo guardava no coração.

E os pastores não foram os únicos a receber
a notícia
de que em Belém um príncipe nascido havia.
José não soube então; Maria não soube então,
mas muito, muito, muito longe daquela estrebaria,
uns cientistas foram informados por
divina instrução
que em Belém um grande príncipe nasceria.
E começaram uma viagem que muito tempo levaria.

Em Belém, uma semana se passou e tudo corria bem.
Logo um mês se passou e tudo corria muito bem.
Era chegada a hora de irem a Jerusalém,
para apresentarem na igreja o neném.

E lá estava um velhinho chamado Simeão.
Quando viu o menino, deu um grito de satisfação:
– Oh! bondoso Deus, meus olhos viram a salvação
que enviaste depois de tanta preparação.

Na frente de todos, levantou a mão
e ofereceu o menino a sua bênção.
E lá estava também Ana, uma mulher de oração,
que também apresentou a sua gratidão
porque também tinha tido a mesma emoção.

Depois do culto, a família voltou para casa.
Ia começar uma outra dura viagem.
Aqueles cientistas lá de longe – lembra-se? –
depois de muita pesquisa, chegaram a Belém,
com muitos presentes na bagagem.
Passaram por deserto e oceano,
sem aviões e sem navios
por montanhas e rios,
sem ônibus e sem trem.
Tinham apenas um plano:
Visitar um rei e lhe fazer uma homenagem.
Enquanto isto, apavorado, em Jerusalém,
o rei do país esperava que eles o caminho
lhe ensinasse para que pudesse pegar o neném.
Mas eles foram por outra direção para o oriente.
O rei era mesmo muito feroz.
Por isto, depois de ouvirem de Deus a voz,
fugiram, de noite, no maior segredo,
em meio a muitas lágrimas de medo,
para um lugar seguro, mas bem distante
onde não lhes podia alcançar o valente.

E ali ficaram até o dia de voltar para Nazaré,
onde ficava a casa e a carpintaria de José.
E ali o menino crescia e se fortalecia,
enchendo-se de sabedoria
porque a graça de Deus nele residia.
E tudo no seu coração guardava Maria.

Como todo menino, este menino cresceu
e um homem adulto se tornou.
Seu tempo de partir nasceu
para fazer aquilo para o qual se preparou.

E eu vou lhe contar
o que este Amigo sempre Maravilhoso,
este Deus muito Poderoso,
este Pai eternamente Amoroso
e este Príncipe Valoroso,
– este é o nome completo de Jesus –
fez, pelo mundo afora,
para a nossa história se encerrar...
mas, calma! Espere. Não será agora
que a melhor aventura vai começar.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Natal no complexo do Alemão


Por Ronaldo Martins

Na semana passada os brasileiros acompanharam pela TV a operação militar que a imprensa chamou de “guerra contra o tráfico”. Pouco se falou sobre o fato de que, durante décadas, a população do conjunto de comunidades do Complexo do Alemão viveu abandonada à própria sorte, sem a presença e o apoio do Estado. O que se destacou foi o fato de que, triunfalmente, a polícia e as Forças Armadas “libertaram a população do jugo dos traficantes”.

A cinematográfica “libertação” demonstrou o que todos sabemos: se há “vontade política”, o Estado pode ter êxito na promoção do bem comum.

Mas de que tipo de libertação nós precisamos? A que provém da vontade ou a que provém da esperança? Essa questão me veio à mente enquanto assistia, estarrecido, à “guerra urbana” no Rio de Janeiro, em pleno domingo de Advento.

O que distingue a vontade da esperança? Segundo Sponville, “a esperança é um desejo que se refere ao que não depende de nós; a vontade é um desejo que se refere ao que depende de nós”. Corroborando com o que afirma o filósofo, eu diria que a esperança da libertação proposta no Reino de Jesus Cristo se funda em uma novidade de vida que não depende de nós mesmos, mas da graça de Deus.

É bom que os moradores do Complexo do Alemão tenham sido libertados da opressão imposta pelos traficantes. Mas devemos ter claro em nossas mentes que eles ainda não receberam o verdadeiro presente de Natal. Apenas tiveram paga uma dívida que poderia ter sido quitada há muito tempo se houvesse vontade.

Que a esperança resista no coração daquela comunidade e que as famílias do Alemão continuem ansiando a libertação definitiva, aquela que foi assim descrita pelo profeta Isaías: “ele edificará a minha cidade, e soltará os meus cativos, não por preço nem por presente”. (Isaías 45:13)

A liberdade apregoada no tempo do advento é aquela que se estabelece como direito de todos os cidadãos do Reino de Deus. É a liberdade que nasce da esperança de que o Senhor está no controle das nossas vidas. É a liberdade que não depende da nossa própria vontade. É a liberdade que advém da verdade, nos guiando para o caminho no qual a presença de Jesus Cristo é definitiva.

Neste tempo de Advento podemos cultivar nossas vontades ou nossa esperança. Na última segunda-feira, a Federação do Comércio divulgou uma pesquisa demonstrando que o índice de otimismo dos consumidores de Belo Horizonte bateu o recorde histórico. Segundo a pesquisa, todos querem consumir como nunca no próximo Natal. Essa é uma vontade que depende apenas de nós. Mas, com certeza, é a maneira menos adequada de esperar pelo Natal.

Talvez devamos aceitar o desafio de reconstituir o sentido do Advento como um tempo de esperança. Podemos e precisamos cultivar a esperança de que o Natal represente, a cada ano, um recomeço, o despertar de um novo dia, no qual ganhamos força para lutar pela transformação definitiva da sociedade e do ser humano.

Quais são as imagens que lhe vêm à mente quando você pensa no Natal? Quais são os desejos que você cultiva? Se eles se referem apenas a prazeres passageiros, como presentes e ceias fartas, são mera vontade humana. Se remetem você ao sentimento de que um mundo novo é possível a partir da libertação preconizada no Reino de Deus, os seus desejos estão revestidos da esperança do Natal.

Feliz Natal para os moradores do Complexo do Alemão!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Porque Jesus não anda com os fariseus.

Por Ariovaldo Ramos,

Lucas, no capítulo 15 de seu livro, registra um diálogo entre Jesus e os fariseus, que reclamavam do fato de Jesus receber e comer com publicanos.

A queixa deles fazia sentido: os publicanos eram gente que havia traído Israel e se tornado cobrador de impostos para os romanos. Eram como os que, na segunda guerra mundial, colaboraram com os nazistas que haviam invadido o seu próprio país.

Para os fariseus, o que faria sentido seria Jesus andar com eles, afinal, entre eles e Jesus, havia mais concordância doutrinária do que entre Jesus e qualquer outro partido judaico.

Jesus respondeu-lhes contando três parábolas: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido.

Parábola é uma “estória” com fundo moral, para destacar um ensino.

Nessas três parábolas Jesus explica aos fariseus porque não andava com eles.

Na parábola da ovelha perdida, Jesus pergunta: Que pastor, tendo cem ovelhas, ao perder uma, não deixa no DESERTO as noventa e nove e sai à procura da perdida, e, quando a encontra, vai direto para casa para festejar com os amigos?

A resposta para essa pergunta é: nenhum pastor faria isso, pois perderia as noventa e nove, e tudo o que teria seria a ovelha perdida, se a encontrasse. A menos que estivesse abandonando as noventa e nove.

Era isso que Jesus estava a fazer, abandonando as noventa e nove. As noventa e nove ovelhas representavam os fariseus.

Jesus explica tê-los abandonado porque há mais alegria por um pecador arrependido, do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento.

Por que Deus não ficaria alegre com noventa e nove justos que não precisam de arrependimento, se, como disse o salmista: Deus conhece o caminho dos justos? (Sl 1.6)

Porque justos são os que sempre se arrependem e não os que se julgam não necessitados de arrependimento.

Os fariseus eram assim, se julgavam justos que não precisavam de arrependimento, mas Jesus os denunciava por serem justos aos seus próprios olhos, mas não justificados por Deus (Lc 18.11-14)

Na parábola da moeda perdida, Jesus diz que ele é como a mulher que, tendo perdido uma dracma (salário de um dia de trabalho), revira toda a casa até encontrá-la, e, ao encontrá-la, chama vizinhas e amigas e faz uma festa.

A casa é Israel, e o que é revirado é tudo o que os fariseus, por conta própria, chamaram de sagrado, e que só servia para passar uma imagem falsa de Deus, afastando os homens da possibilidade do arrependimento. A dracma representava os publicanos.

Na parábola do filho perdido, Jesus concorda com os fariseus quanto aos publicanos: deixa claro que são pessoas que jogaram para o ar tudo o que tinham junto ao Pai, para viver dissolutamente, seduzidos pelos romanos, que, por fim, apenas lhes estavam oferecendo viver numa pocilga.

Mas o Pai jamais desistiu dos publicanos, mantendo-lhes aberta a porta do arrependimento.

Entretanto, os fariseus, a exemplo do irmão mais velho, não o admitiam. Entendiam-se como juízes de seus irmãos, não dando crédito ao arrependimento dos mesmos, até por julgá-los incapazes de tal ato.

Os fariseus, como o irmão mais velho, não conheciam, de fato, o Pai, e não o amavam; pior, entendiam que o Pai tinha uma dívida para com eles, por causa da fidelidade com que o serviam sem nada receber em troca. E, em não amando o Pai, não amavam a ninguém. E quem não ama não considera a possibilidade do arrependimento do outro.

Jesus, em muitos casos, podia até ter o mesmo enunciado que os fariseus, mas não tinha o mesmo coração.

E... Como disse o poeta e compositor Claudio Manhães: “Diferente é o coração, a diferença é o coração!”

A boa doutrina tem de, necessariamente, gerar um bom coração, senão será, mesmo que correta, um enunciado vazio, por não ter frutificado no coração de quem a prega.

©ariovaldoramos

sábado, 27 de novembro de 2010

Deus é inocente

Por Ed René Kivitz

"Deus sabe o que é padecer"

"Se o céu existe, Deus tem muito que explicar". Essa afirmação do Robert De Niro faz eco em meu coração. Também experimento o incômodo de deixar Deus sub judice diante do sofrimento humano. Não me conformo diante das injustiças da vida. O argumento de que todos somos maus e em última análise ninguém mereceria ser poupado do mal não me satisfaz. Sou daqueles que acreditam que coisas ruins acontecem às pessoas boas e acalentam silenciosos uma certa contrariedade quando coisas boas acontecem às pessoas ruins. Acredito, sim, que no mundo existe gente boa e gente ruim. E também acredito que a maioria das pessoas não merece a tragédia que sofre.

O casal que perde o filho recém nascido, o adolescente que fica tetraplégico após um displicente mergulho na piscina do clube, a mulher que se vê mutilada pelo câncer, o pai de família que percorre as ruas na indignidade do desemprego e que, por vergonha ou por caráter - as duas coisas, não sabe nem mesmo esmolar, são situações cotidianas que me fazem dormir mal sob o peso do veredicto: Deus tem mesmo muito que explicar.

Mas trago no coração duas outras certezas que me apaziguam a alma, me dão coragem para viver e me animam à solidariedade, ainda que tímida e não poucas vezes insuficiente. O céu existe. Não sei como é. Não sei onde fica. Não sei quando acontece. Mas que existe, existe. Este mundo não é a realidade definitiva. O presente estado das coisas não é a versão final da obra de Deus. Uma coisa é o mundo em que vivemos. Outra, o mundo em que viveremos eternamente. E a respeito das coisas que acontecem neste mundo e não deveriam acontecer, e que não acontecerão no mundo vindouro, Deus já se explicou. Deus se pronunciou em alto e bom som, há mais de dois mil anos, na cruz do Calvário, onde foi morto Jesus de Nazaré, o Cristo, unigênito de Deus.

A tradição cristã afirma que "Deus prova seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores". Quem duvida do amor de Deus deve olhar para o Calvário. No dia em que o sofrimento se agiganta e a visão do amor de Deus fica ofuscada pelas lágrimas da dor quase insuportável, a cruz do Calvário é o grito apaixonado de Deus. John Stott disse que na cruz de Cristo Deus justifica não apenas a humanidade, mas justifica a si mesmo. Na cruz de Cristo, Deus se levanta diante de todos os que o acusam de ser injusto, tirano, indiferente ao sofrimento e à dor humanas, e pronuncia a sentença de inocência sobre si mesmo. A cruz de Cristo é a prova irrefutável do amor de Deus.

Na cruz de Cristo há quatro afirmações que provam o amor e definem a inocência de Deus. Na cruz de Cristo Deus é declarado inocente porque se solidariza com as vítimas do mal e da malignidade. Através da morte de Jesus Cristo, seu Filho, Deus afirma "O mal também me feriu", "O sofrimento chegou também à minha casa", "As lágrimas pelo padecimento injusto também rolam dos meus olhos", "Eu e as vítimas do mal e da malignidade somos um".

Aqueles que imaginam que o Deus que "habita em luz inacessível" vive confortavelmente no ar condicionado do céu, enquanto suas criaturas penam contra o diabo na terra do sol, estão absolutamente enganados. Deus tem a cara suja pelas lágrimas que borram seu rosto sofrido com a dor de cada um dos seus filhos por adoção e do seu unigênito. Na cruz de Cristo Deus sofre conosco. Sofre por nós. Sofre em nosso lugar. Deus sabe o que é padecer. Seu Filho é homem de dores. Ovelha muda entre seus sanguinários tosquiadores. Na cruz de Cristo Deus atravessou não apenas o vale da sombra da morte. Atravessou a própria morte.

Na cruz de Cristo Deus é declarado inocente porque não é contato entre os promotores do mal, mas entre os que sofrem os danos da malignidade. Na cruz de Cristo Deus afirma "Não olhem para mim como se eu ordenasse o mal", "Quando estiver sofrendo, não me conte entre os que lhe causam a dor", "Na cruz, eu não batia pregos na mão de ninguém. Na cruz, a mão sob os pregos ferozes era a minha". Quase posso escutar Deus dizendo à mãe que chora a filha atropelada: "Não me tome como quem passou por cima, eu estava em baixo, sendo esmagado sob o peso da borracha negra que me dilacerava a carne e a alma".

Na cruz de Cristo Deus sofre o mal. Na cruz de Cristo Deus é exposto como vítima da malignidade e não como algoz que causa dor e sofrimento. Na cruz de Cristo os verdadeiros promotores da morte são publicamente desmascarados. Cai o pano. E todo mundo pode ver que Deus não está com mãos sujas de sangue inocente. Na cruz de Cristo Deus é a mão inocente que sangra.

Na cruz de Cristo Deus é declarado inocente porque fica evidente que a causa do sofrimento é o pecado da raça humana. Os pecadores estão pensos nas cruzes laterais, mas a crua do meio sustém um inocente. Na cruz de cristo Deus afirma: "Vocês deflagraram o mal", "Vocês abriram a caixa de Pandora", "Vocês soltaram a besta fera", "Vocês macularam o Paraíso". O aviso ainda ecoa pelo universo: "No dia em que pecar, certamente morrerás". A presença da morte é evidência de pecado. E o pecado é responsabilidade da raça. A cruz de Cristo somente se explica porque o pecado que a faz necessária. Naquele dia em que Deus provava seu amor para conosco éramos de fato ainda pecadores.

Na cruz de Cristo Deus é declarado inocente porque é o que morre, e não o que mata. Na cruz de Cristo pende o justo morrendo a morte dos injustos. O veredicto está lançado: há pecado, pois que haja morte. O salário do pecado é a morte, disse o apóstolo. A justiça do Deus três vezes santo há que ser satisfeita. Deus está diante de seu dilema eterno: matar ou morrer. E sua opção é definitiva, desde antes da criação do mundo: morrer. Na cruz de Cristo Deus faz sua escolha e anuncia sua disposição de amor absoluto: se alguém tem que morrer para que a justiça volte a brilhar no universo maculado pela culpa da raça humana, que viva a raça e que morra eu-Eu.

O primeiro dos dilemas é criar ou não criar. O segundo é criar com liberdade ou sem liberdade. O terceiro é assumir o ônus da liberdade ou deixar este ônus nas mãos da criatura. Deus faz as escolhas que o machucam, que lhe causam dor, que o fazem sofrer, que o diminuem. Simone Weil diz que "Deus e todas as suas criaturas é menos do que Deus sozinho". Deus escolhe criar. Escolhe criar um ser livre, pois não fosse livre não seria à imagem do Criador. E escolhe arcar com ônus da liberdade que concede à sua criatura. Na cruz de Cristo está deus, dando ao rebelde o direito de existir. Na cruz de Cristo está Deus entregando a sua vida, voluntariamente, em favor dos pecadores. O mal deflagrado pela raça levanta sua sombra sobre o trono de Deus. E Deus se levanta como um Cordeiro que se doa, pois escolhera morrer, em detrimento de matar. Na cruz de Cristo está o Deus que morre para que todos tenham vida, vida completa, abundante vida.

Fonte: IBAB

sábado, 20 de novembro de 2010

O deserto de João Batista

por Marcos Soares

Amigos, houve um outro sujeito bastante interessante que conviveu com um deserto pela sua vida toda. Uma das figuras mais excêntricas em toda a Bíblia, de quem pouco se fala e a respeito de quem os detalhes fornecidos são capazes apenas de relacioná-lo com aquele típico profeta estraga-prazeres. Suas vestes eram fora de moda e rústicas. Sua dieta, um tanto esquisita. Ele cresce e ministra no deserto (Lc 1:80). Ele tem uma vida frugal e no mínimo diferente. Lembra muito o Elias do Velho Testamento, por seus modos não convencionais e pela coragem de denunciar os podres dos palácios. Aliás, assim ele é escatologicamente identificado pelo próprio Senhor Jesus (v.14), de quem também recebe o título de “o maior nascido de mulher”.

Este João, quando lhe perguntavam quem era, tinha uma resposta direta e objetiva, na ponta da língua: “sou apenas uma voz”. Importante para a nossa reflexão é que esta voz clamava justamente no deserto. Apesar de suas credenciais extremamente elevadas, ele nunca pretendeu ser mais do que isso. Nem mesmo quando os outros tentaram a fazê-lo (Jo 1:19-23). Tinha uma missão bem definida e concentrou todos os seus esforços para cumpri-la. Viveu e ministrou isolado e solitário. Sim, há muitas e boas lições a respeito do deserto na vida de João Batista.

Desertos não preparam celebridades. Primeiro porque elas não gostam do ostracismo. Elas precisam estar na mídia. Quem quer a luz das câmeras apontada para si não pode ir para o deserto. Elas não o alcançarão ali. Depois de viver e crescer nesse ambiente rude e solitário, João Batista, o maior de todos os profetas estava pronto para dizer: “Convém que ele cresça e eu diminua” (João 3:30). A julgar pelos títulos cada vez mais criativos e pomposos, os atuais “profetas” preferiram a versão do “convém que ele cresça e eu apareça”. Talvez esteja falando um pouco de deserto para essas versões modernizadas de profetas.

Desertos deixam uma marca precisa sobre o valor do tempo e da vida (Mt 3:1,2). João Batista tinha isso como base da sua mensagem (“Arrependei-vos porque o tempo está próximo”), além de ter entrado e saído de cena na hora exata. Ele era um arauto, alguém que precedia o Rei. Uma vez feito o seu serviço, ele ficou na dele. Passou o bastão e os discípulos que tinha e não teve medo de apresentá-los a Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” foi a senha para que todos entendessem claramente que o seu ministério tinha chegado ao fim. Sem crise, sem ciúmes, sem ressentimentos. Era a prova de que ele tinha aprendido no deserto que as coisas tem que acontecer no momento certo.

Desertos preparam pessoas dispostas a não negociar valores eternos (Mt 14:3-5). Quem vive e trabalha no deserto, depois de tudo que passou ali, saberá manter-se forte o suficiente para não se dobrar diante dos mais poderosos (Mc 6:20). O deserto forja um caráter provado e uma estrutura forte. Desertos geram mais do que idealistas ou visionários. Desertos geram pessoas com convicções inabaláveis. Não tente subornar quem foi criado no deserto, porque vai se dar mal. Vai ouvir o que não quer e mais um pouco.

Pois é. Os desertos fizeram parte da vida de gente importante. Desertos foram a moldura, árida, inóspita, cruel até, mas que abrigou verdadeiros tesouros. Não tenho procuração para falar em nome de nenhum desses personagens. Apenas imagino que se algum deles tivesse a opção, antes de conhecer o fim da história, de viver em um ambiente refrigerado, com comida farta, cama confortável, piscina aquecida e coberta, rodeado de mimos e bons amigos ou viver num deserto, é possível que eles tivessem ficado com a primeira opção. Digo isso porque penso que seria também a minha escolha. Também não quero falar em seu nome mas, cá entre nós, tenho forte impressão de que também seria a sua. Ninguém escolhe o caminho mais difícil. Não é natural.

Acontece que, como diria o antigo hino de William Cowper. “Deus se move de maneiras misteriosas” e sabe melhor do que qualquer um de nós quais são os efeitos da vida mansa e fácil sobre o espírito humano. Para formar um grande homem de Deus que, para citar o escritor Gene Getz, não aparece de repente, são necessários alguns fatores que os desertos podem oferecer. Foi assim que aconteceu com esses homens que analisamos rapidamente nas últimas semanas.

Se desertos fizeram parte da vida desses gigantes, por que não fariam parte das nossas? A menos que a gente se contente a manter as coisas como estão e continuar nossa vidinha sem sustos e sem alterações significativas.

sábado, 13 de novembro de 2010

O deserto de Elias


por Marcos Soares

Amigos, outro personagem que viveu um momento de deserto foi o profeta Elias. Ele vinha de uma acachapante vitória contra os profetas de Baal, aos quais havia desafiado de uma maneira corajosa e ousada no monte Carmelo. Num ato de fé descomunal, ele faz cair fogo do céu que consome seu altar, enquanto os idólatras nada conseguem com suas conjurações demoníacas. Ocorre que este triunfo no monte acabou por desencadear uma perseguição feroz da parte da rainha pagã Jezabel (que havia casado com Acabe). Centenas de profetas do Senhor foram mortos. Elias então, assustado e com medo de ser ele mesmo assassinado, fugiu para o deserto. Chegou ali, depois de caminhar um dia inteiro, sentou-se debaixo de um arbusto e pediu para morrer. Ele não agüentava mais. Estava cansado, desanimado, temeroso. Dormiu. Leia os detalhes desta história em I Reis capítulos 18 e 19. Para resumir, Elias ficou quarenta dias vagando por aquele deserto, até chegar ao monte Horebe.

Os acontecimentos daqueles dias são bastante didáticos. Após o atingir o ápice do seu ministério, Elias estava enfrentando agora a realidade mencionada por Tiago a respeito da sua vida: ele era um homem semelhante a nós. Ele enfrentou sentimentos que eu enfrento. Teve medos que eu tenho. Pensou em desistir de tudo como eu já pensei. Quis ficar sem ver a cara de ninguém, como muitas vezes eu fiquei. Achou que só ele estava preocupado em ser fiel, como algumas vezes já achei. E aí o deserto de Elias começa a fazer sentido para mim, porque à semelhança de Moisés, Elias saiu dele bem diferente do que entrou.

Desertos vêm depois de vitórias retumbantes. A depender de alguns fatores, como a nossa personalidade, capacidade de resistência a fortes emoções e estresse, entre outros, algumas pessoas podem se esgotar fortemente após grandes realizações para Deus. É normal. Apesar de que a atitude de Elias em fugir e se esconder não estava totalmente correta (como Deus mesmo lhe disse), era compreensível. Desertos são o primeiro lugar para onde queremos ir quando percebemos que o mundo se virou contra nós, apesar e por causa de estarmos fazendo exatamente o que Deus queria que fizéssemos naquele momento. As conquistas extraordinárias que o Senhor nos permite desfrutar não são garantia de que estaremos sempre cobertos de louros, recebendo homenagens em festas de “Os Melhores do Ano”. Muitas vezes elas nos levam a confrontar interesses poderosos, tradições perigosas e mentes fossilizadas. A reação, na maioria das vezes, não é nos aplaudir, mas desembainhar sua espada e sair correndo atrás de nós e de todos aqueles que viram sentido no que Deus fez.
Desertos são lugares solitários, mas que não escapam do cuidado de Deus. Quando acordou depois da primeira noite naquele lugar inóspito, havia uma mesa de café da manhã posta para o profeta. O garçom era um anjo. Estava tudo tão bom, que ele comeu, bebeu, virou para o outro lado e dormiu de novo. O anjo o chamou de novo e o animou para continuar a caminhada, que seria longa. Deus não tinha perdido Elias do seu radar. Deus não estava alheio aos acontecimentos. Ele sabia que Elias precisava de força física para suportar o que vinha pela frente e providenciou o necessário para supri-lo. Que bom saber que o Senhor não esquece de nós, mesmo nos dias em que parece que até o próximo pedaço de pão vai faltar.

Desertos nos levam a encontros inusitados com Deus. Quem de nós tentaria achar Deus numa caverna? Pensamos em encontrá-lo num templo cristão, num acampamento evangélico, num retiro espiritual, no nosso quarto de oração. Numa caverna não. Já houve quem o encontrasse na cabana, mas na caverna, não. A bem da verdade, não foi Elias quem encontrou o Senhor. Foi o Senhor quem bondosamente foi atrás dele ali, sabendo e compreendendo graciosamente o delicado momento em que seu profeta se encontrava. Encontrou-o ali no escuro para revelar-se a ele de forma única. No fundo da caverna, uma pergunta transformadora: “Que fazes aqui, Elias”? Elias tinha lá suas razoes para estar ali. Para ele, elas eram mais do que justificáveis. Mas Deus tinha outra opinião. O Senhor o leva para a entrada da caverna e faz passar diante de seus olhos uma grande tormenta. As pedras rolam monte abaixo, as paredes rochosas da caverna estremecem. Depois vem um terremoto medonho. Depois um fogo. Diz o texto que Deus não estava em nenhuma dessas manifestações. Seu poder foi manifesto, mas ele não estava ali. Só depois dos espetáculos, num cicio tranqüilo, é que Deus fala ao coração do profeta. Que experiência! Só que já passou por ela sabe descrever o que Elias sentiu naquela hora.

Desertos afinam nosso autoconceito de compromisso com Deus. Foi no deserto que Elias descobriu que havia 7.000 remanescentes em Israel, que não haviam dobrado seus joelhos a Baal. Gente que estava escondida, discreta e clandestina, mas cujo coração era fiel a Deus. Enquanto Elias está ali, achando que ninguém mais está preocupado em servir a Deus e que todo mundo virou idólatra, Deus lhe faz ver que tem gente que, apesar de se manter anônimo, acabava mostrando mais coragem. Afinal, eles estavam lá no meio do povo, enquanto o fiel e ortodoxo profeta estava escondido no deserto.

Desertos precedem escolhas importantes. Logo após sair desse período desértico e solitário, Elias teve duas escolhas. Tudo bem que uma delas, a escolha do novo rei de Israel, Jeú, foi feita pelo próprio Deus. Mas a outra ficou por sua conta: escolher Eliseu para ser o seu sucessor. Eliseu veio a se tornar um dos maiores profetas de toda a história de Israel. Só fez menos milagres registrados na Bíblia do que Jesus. Bendito seja o deserto que fez Elias lembrar desse moço. Seu ministério foi além, em vários aspectos, do próprio ministério de Elias.

Gostaria mais uma vez de dizer que os desertos são maravilhosos. Continuo achando que são lugares terríveis. O valor que eles tem a oferecer não é o conforto, a segurança ou a boa vida. Nada disso acontece por lá. Seu inestimável valor está nas experiências únicas e inesquecíveis que vivemos neles.
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