sábado, 25 de junho de 2011

Entre demandas e valores


Ricardo Agreste

Precisamos de um novo equilíbrio entre nossos corações e nossas agendas. Podemos afirmar que nossa família é prioridade em nossas vidas, mas nossas agendas não condizem com tal afirmação.

Nunca na história da humanidade uma geração esteve tão cercada por demandas como esta à qual pertencemos. Vivemos imersos numa cultura geradora de demandas pessoais, familiares, profissionais, econômicas, sociais e ecológicas, entre outras. Parte delas tem sido gerada e propagada pela mídia de uma sociedade de consumo. Mas também têm sido produzidas e assimiladas através de nossas próprias redes de relacionamentos, nas quais, constantemente, estabelecemos como padrão de referência aquilo que o nosso amigo, vizinho ou parente diz ser, possuir ou fazer.

No passado, era muito mais fácil criar um filho, ter um corpo considerado saudável ou sentir-se realizado profissionalmente – até ter um padrão de vida tido como bom era menos complicado. Atualmente, para criar um filho, necessitamos de coisas que jamais passaram pela mente de nossos pais ou avós. Hoje, só é saudável quem passa horas e horas em academias, ou malha até o limite da resistência. Só pode ser considerado um bom profissional aquele que acumula títulos acadêmicos, domina idiomas e está disposto a sacrificar tudo pela carreira. E ter um bom padrão de vida significa necessariamente possuir bens considerados, até pouco tempo, como totalmente supérfluos.

O grande problema de estarmos inseridos nessa cultura da demanda é que, gradativamente, perdemos a noção da influência que ela exerce sobre nós e dos caminhos que nos leva a percorrer. Passamos a viver em função das demandas que emergem diante de nós e somos pressionados a seguir rumos que nos são impostos (ou a que nos impomos) sem refletir se eles nos levarão para onde um dia planejamos chegar. Assim, nossas vidas se transformam numa grande maratona, só que no ritmo de uma corrida de 100 metros rasos.

Podemos encontrar as consequências disso por todo lado. É fácil encontrarmos gente com agendas lotadas, valores confusos, sintomas crônicos de estresse, casamentos arrebentados, filhos ansiosos e sem limites, vida financeira em desequilíbrio e profundos sentimentos de frustração. Esse tipo de pessoa tem se tornado tão comum em nossa sociedade que corremos o risco de assimilar tal perfil como normal – e concluir que este é o único padrão possível numa cultura geradora de demandas.

No entanto, como discípulos de Jesus, não podemos – e nem devemos –, acreditar que tal é o padrão normal a ser vivido. Na verdade, imersos pela cultura das demandas, precisamos tomar uma decisão interior – afinal, quem determinará os rumos de nossas vidas? As demandas da cultura que nos envolve ou os valores de Deus em nossos corações? Nossa resposta não apenas determinará o futuro de nossas vidas, como também revelará quem de fato é nossa fonte primária de orientação.

Mas a decisão por fazer dos valores de Deus a nossa fonte primária de orientação não é tão simples como parece. Decisão assim impõe sobre nós a necessidade de uma verdadeira reorganização de prioridades em nossas vidas. Primeiramente, precisamos de um realinhamento entre os valores de Deus e os valores de nossos corações.
Muitas pessoas frequentam igrejas, leem a Bíblia, conhecem seus principais personagens e histórias e até fazem orações diariamente. No entanto, os valores do
Reino de Deus não estão em seus corações. Sua relação com a espiritualidade cristã é de mera informação, e não de transformação; e seus corações continuam envolvidos e encharcados pelos valores determinados pela cultura.

Em segundo lugar, após o realinhamento dos valores de Deus aos valores de nossos corações, precisamos também de um novo equilíbrio entre nossos corações e nossas agendas. Podemos afirmar que nossa família é prioridade em nossas vidas, mas nossas agendas não condizem com tal afirmação. Podemos dizer que nossa saúde física e emocional é fundamental em nossa caminhada, mas, novamente, nossa agenda diz o contrário. Logo, se queremos experimentar os valores de Deus como fonte primária de orientação em nossas vidas, precisamos fazer com que eles alcancem e influenciem nossas agendas.

Desta forma, como homens e mulheres imersos numa cultura de demandas, podemos viver uma verdadeira contracultura que tem como centro dinamizador os valores de Deus para a vida em todas as suas dimensões. Como consequência, nossas agendas não estarão mais condicionadas às demandas emergentes, mas sim, aos valores estabelecidos pelo Senhor – valores estes que nos conduzem a um projeto de vida marcado pela sabedoria do Criador, e não pela loucura da cultura gerada pela obstinação de suas criaturas.

Fonte: Cristianismo Hoje

sábado, 18 de junho de 2011

Um testemunho sobre divórcio


Por Ariovaldo Ramos

Quarta Capa - texto para o livro, sobre o divórcio, de Virgínia Martin)

O senhor quer se divorciar? Perguntou-me a juíza. O que deixava a situação ainda mais embaraçosa. Eu estava esperando por um juiz! Não, quem quer se divorciar é ela. Respondi!

O senhor leu os autos e está pronto para assinar o documento? Sim. Respondi, sem ênfase.

No fim, parece que era só disso que se tratava: assinar um documento.
Pronto! Meses de angústia, e de lágrimas, e de orações aparentemente não respondidas, como num passe de mágica, estariam resolvidos com uma assinatura! Eu estaria livre!

Mas quem disse que eu queria me ver livre do que quer que fosse?

Eu havia vivido mais de duas décadas só para isso. Com acertos, com erros, com pedidos e frases de perdão, eu vivi só para o casamento: todos os sins e todos os nãos que disse, os disse para continuar o casamento. Todo o processo de desmascaramento de minha imaturidade, e todo o processo doloroso de crescimento tinha como pivô o casamento.

Eu não queria me livrar disso... Eu não sabia mais viver sem isso!
Estava pronto para encaminhar a minha prole à vida, para viver a vida com quem, depois de muitas idas e vindas eu, realmente, queria viver.

O senhor já assinou? Ah! Sim. Está aqui. Respondi à voz que interrompia-me em meio a pensamentos em que eu tentava processar a minha dor.

Saí com aquele papel nas mãos, e aquele papel em minhas mãos era tudo o que eu conseguia sentir sem doer.

Não tinha ideia do que a estivesse acometendo. Não me importava! Ela quis o divórcio! Ela era a culpada!

Naquela altura eu não sabia que muita coisa iria mudar, e teria de mudar para que a esperança retomasse espaço em minha vida. A culpa seria repartida. Muita coisa que entendi resolvida por palavras ditas, ainda que com sinceridade, teriam de ser revistas por mim e em mim. Muita coisa que entendi ser de menor importância teria de ser revalorada. E muita dor que nunca entendi ter provocado teria de ser assumida.

O tempo passou! Superei! Não sem dor e não sem acabar por provocar dor em quem não tinha nada a ver com isso!

A Virgínia diz que é preferível estar no redemoinho do que no olho do furacão. Concordo! Mas do redemoinho a gente acaba por atingir gente que estava só assistindo ao tufão. E isso aumenta o lamento que a gente sabe que vai carregar.

Acalmou o meu coração! Mas se instalou um indisfarçável medo.

Eu sou um pregador. Deus tem sido gracioso para comigo. As palavras que o Senhor tem me dito têm calado no coração de muitos irmãos e irmãs. E isso é um grande consolo. Mas, apesar disso, toda a vez que subo ao púlpito, que me é sagrado, sinto que, por mais aceito que eu seja, eu carrego um estigma, e não consigo tirar a dor de meus olhos, porque eu sei que eles estão certos, eu passei por algo que eles não querem passar e não sabem como isso pode acontecer com alguém que precisa estar no púlpito.

Pois é, minha amiga... Eu sei, eu sei!

Mas a roda tem de girar, e gira, e Deus, que ama, nos alenta e nos faz ver o sentido que transcende!

Parabéns! É isso! É preciso exorcizar tudo o que tenta nos roubar a identidade.

Muitos serão ajudados!

domingo, 12 de junho de 2011

Afastamento que aproxima


Esther Carrenho

As diferenças podem somar na relação a dois. É justamente a expressão única que cada ser humano tem que pode enriquecer a convivência conjugal

Em minha vivência profissional, por diversas vezes tive de responder à seguinte pergunta: O que faz com que um casamento dure? Muitas coisas podem acontecer para que um relacionamento conjugal não termine em divórcio. Mas o fato de não haver uma separação entre dois parceiros não significa que exista ali um bom casamento. Pode até não existir mais casamento, embora os dois cônjuges continuem residindo sob o mesmo teto.

O que faz um casamento durar? Inúmeras coisas, e não necessariamente positivas. Então, como fazer com que uma parceria conjugal não apenas perdure por muito tempo, mas proporcione crescimento e satisfação a um homem e uma mulher? Um desses fatores é a capacidade de transitar bem no movimento de aproximação e distanciamento dentro do relacionamento, quando se fizer necessário. Não se trata daquele distanciamento acarretado pela separação, mas de Uma liberdade que cada um deve ter de se afastar do outro por um tempo, evitar o diálogo e, quem sabe, até do convívio, para desenvolver novos aspectos da sua compreensão – para, depois, voltar para o reencontro e novamente começar outra caminhada com o mesmo parceiro. Ou seja, movimentos de afastamento sem rompimento de vínculos e de reaproximação sem perda de identidade.

Em outras palavras, uma boa parceria conjugal é aquela onde muitas vezes se “rasga” o contrato já feito para começar um novo, sem trocar-se de parceiro. Muitos casais vivem numa simbiose, acreditando que cada um é uma metade do outro e que os dois, juntos, constituem uma só pessoa. Puro engano. Com dois meios, só é possível formar uma dupla de aleijados. E só. Scott Peck, psiquiatra americano, afirma que o bom casamento é aquele onde cada um tem a capacidade de viver só, mas escolheu a vida em comum. Outra possibilidade, quando dois viram um, é que a identidade de cada cônjuge desapareça e prevaleça apenas a opinião e o jeito do outro. Casamentos assim podem durar muito, mas não podemos chamar a isto de parceria. O melhor é acreditar que um dos parceiros “morreu” em vida. Não estou muito certa do que o apóstolo Paulo quis dizer quando disse que, no casamento, ambos se tornam “uma só carne”; mas, certamente, ele não quis advogar a anulação de um dos cônjuges dentro da união matrimonial.

Alguns elementos são fundamentais para esse ir e vir no relacionamento. Para que um possa se afastar, é necessário que ambos tenham recursos para não tirar a liberdade, e que cada um desenvolva a confiança em si mesmo e no outro. Na proximidade, cada um se apresenta com tudo que conhece, pensa e sente. Quanto mais próximo do outro, mais o indivíduo tende a se mostrar como de fato é, com transparência e sem reservas. É o momento da entrega. Enquanto isso, o outro pratica a escuta verdadeira e o acolhimento sem defesas e sem condições. Não há explicações; é o tempo de receber e hospedar o outro do jeito que está. Mas, mesmo com a aceitação, as revelações ouvidas podem gerar conflitos, desajustes, medos, decepções e frustrações. Novamente, faz-se necessário o afastamento, quando cada um tem a oportunidade do encontro consigo mesmo para a elaboração dos novos conteúdos recebidos do parceiro. Há a chance de se refazer, se recompor, enfim, reconstruir a própria identidade diante de novas escolhas a serem feitas.

É justamente a expressão única que cada ser humano tem que pode enriquecer a convivência conjugal. É um paradoxo, porque a unicidade dos dois evidencia também as diferenças – e diferenças não são defeitos. São apenas maneiras diversas de ser, de ver, de reagir diante da vida. As diferenças podem somar na relação a dois.
Fazendo acordos e respeitando um ao outro, os dois parceiros se darão o apoio necessário quando uma situação exigir exatamente aquilo que apenas um faz melhor.
Quem aprende o segredo de ir é capaz experimentar, na volta, o encontro misterioso que pode acontecer entre duas pessoas. Um encontro que, por constituir mistério, não pode ser explicado. Desfrutar dos encantos desse mistério pode capacitar os cônjuges para carregar todo o peso do funcionamento de uma parceria matrimonial. O exemplo para uma saudável convivência desse tipo foi dado por ninguém menos que nosso Redentor, conforme Paulo diz em sua Carta aos Filipenses: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo.”

sábado, 4 de junho de 2011

Preciso de amigos



Por Tais Machado

A sociedade em que vivemos favorece o reino particular, o individualismo e a autonomia como um ideal, e engrandece a trajetória individual daquele que “chegou lá” sozinho, pelo seu próprio e “exclusivo” esforço, como se isso fosse possível.

Muitos estão tão focados em seus projetos, suas metas, seus resultados, suas conquistas que só tem tempo para aquele que for útil. Muitas relações se baseiam nisso. E ainda, é preciso considerar se é mesmo estratégico e se é confiável.

Interessante ler como muitos têm percebido algumas implicações, contradições e lembretes significativos a respeito.

A psicóloga Rosely Sayão, por exemplo, comentou recentemente:

“A época em que vivemos tem uma característica que afeta profundamente as relações interpessoais e, portanto, a vida em sociedade: a desconfiança que criamos em relação ao outro. [...] Precisamos dos outros. Sem eles não há vida social possível. Convivemos com os outros, como colegas e estranhos, boa parte de nossa vida: no trabalho, nos espaços públicos das cidades, no trânsito, nos transportes coletivos etc. E que tipo de vida é essa, se estamos sempre prontos a pensar que o outro aí está para nos prejudicar?” (1).

Já o Rubem Alves diz que “é preciso não estar sozinho. Batalha que se batalha sozinho é batalha perdida. Batalha que se batalha com outros é batalha que pode ser ganha”.

Outra psicóloga, essa uruguaia, Diana Corso, diz também que “por mais fortes e virtuosos que sejamos, o ponto onde chegaremos depende de onde partimos e a forma como chegaremos lá vai ser determinada pelos companheiros de jornada”.

Por sua vez, o pastor e escritor, Eugene Peterson, salienta que
“há sempre muito mais além do alcance dos nossos olhos. E deixamos de perceber muita coisa. Precisamos de amigos que nos puxem pela borda da camisa, que nos virem e nos mostrem o que acabamos de perder agora em nossa pressa por atravessar a rua para chegar ao banco. Precisamos de amigos que estendam o braço sobre o nosso ombro, interrompendo nossos comentários contínuos sobre as conversas da cidade para que possamos ouvir a verdade. Precisamos de testemunhas do transcendente”.

Minha trajetória é resgatada em Cristo, mas são muitos os amigos e amigas que compõe a minha compreensão desse resgate. Já me perdi tanto e sai derrotada de várias batalhas por assumi-las sozinha.

Foram as pessoas chegadas da minh’alma que me ajudaram a mudar o ritmo, ainda me orientam a uma vida mais saudável, me ajudam em meus desesperos e medos infantis, me lembram quem sou e para onde vou. São pessoas amigas e íntimas que me recordam a vocação, me animam quando estou estacionada e abatida.

Gente amiga e irmã que são testemunhas do Deus vivo, são pedras vivas na reconstrução de Cristo em mim. São colo de Deus em dias turbulentos, e, chuva de admoestação quando estou ressecada pela arrogância. São pessoas que repartem comigo o Pão da vida, dividem o próprio sustento comigo, alimentam minha alma com afeto, cuidados, pessoas que me fazem gostar mais de Deus, nosso Pai.

Jesus nutriu amigos e os chamou para mais perto, os chamou para si. O apóstolo Paulo relata que em meio a conflitos externos e internos, sendo tão atribulado, encontrava-se abatido, mas de Deus recebeu consolo com a chegada especial de Tito (II Coríntios 7.5-7) e toda celebração fraterna através dele.

A vida comunitária me educa, me exorta, me encoraja, me santifica. Não é fácil; às vezes me machuco, sinto-me decepcionada em algumas ocasiões, e em outras, a sensação de solidão domina. Mas, a comunidade está próxima, não posso fugir.

Peço a Deus para me ajudar a querer, a desejar profundamente a comunidade, a saborear melhor a comunhão com a família da fé, a privilegiar esse espaço, a me abrir para o outro, a receber o próximo.

Jesus me ensinou que não posso andar só. A psicologia reforçou tal verdade. E os muitos que já me abrigaram, me inspiram.

Minha gratidão ainda é tímida perto de tudo o que significa para mim os muitos companheiros e companheiras nesse chão duro da vida. Não sei nem contar quantas vezes me levantaram. Mas estou aqui porque eles estiveram e continuam comigo – pura manifestação da graça de Deus.

O reino da humanidade caída é d e muita competição, o que inclui vencer o outro, ser mais forte, provar sua competência à frente. O Reino de Deus é de cooperação, de solidariedade, é um Reino de amigos que encontraram um Amigo em comum – alguém que nos fez amigos seus (João 15.15).

Agradeço a Deus pelos que passaram e pelos que permanecem. Agradeço a Deus, nossa referência e esperança.

Notas
(1) Folha de São Paulo, 21/09/2010.

sábado, 28 de maio de 2011

Deus de perguntas



Por Dawn Zemke

Algumas vezes o inexplicável lado de Deus me deixa louca, porque frequentemente não entendo o motivo dele permitir algumas coisas.

Algumas vezes exponho os mistérios de Deus. Que ele sempre existiu e sempre vai existir. Que ele é Pai, Filho, Espírito Santo, três em um. Que ele criou nosso incrível planeta – oceanos, montanhas, desertos e uma inacreditável variedade de vida selvagem, para não mencionar as pessoas. Como embrulho meu cérebro em volta de tudo isso? Sinto uma indefinível e enigmática parte da natureza de Deus me mandando um calafrio abaixo da espinha e me lembrando como verdadeiramente ele é grande - e como abençoada sou porque ele não somente toma conta de mim, mas me conhece intimamente.

Algumas vezes, entretanto, esse mistificante e inexplicável lado de Deus me deixa louca, porque frequentemente não entendo o motivo dele permitir algumas coisas. Por que maravilhosos e amorosos casais permanecem sem filhos e outros concebem e jogam fora bebês sem uma boa razão? Por que um homem que nunca tocou um cigarro morre de câncer de pulmão enquanto um fumante de dois maços por dia vive até uma idade mais avançada? E por que uma mulher bondosa e fiel como minha mãe deve esperar a morte do marido e a da filha pequena enquanto outras pessoas permanecem intocáveis por tragédias durante toda a vida?

Eu sei, eu sei - nós estamos vivendo em um mundo caído, experimentando a consequência do seu pecado. Eu reconheço que Deus está sempre no controle, mesmo quando sinto como se ele tivesse perdido a equação. E acredito em sua promessa que o seu plano é “prosperar e não danificar, planos de me dar esperança e um futuro” (Jeremias 29:11).

Isso não significa que eu tenha que gostar disso. E definitivamente não significa que eu não experimento momentos de dúvida, quando eu grito, “Por que Deus? Como você pode? O que você estava pensando?”

Eu costumo me sentir culpada por alguns pensamentos. Depois de tudo, Deus é... Deus. Seus caminhos são além da minha compreensão, certo? É meu trabalho como sua filha ter uma fé inabalável Nele. Acreditar sem questionar.

Ou talvez não.

No capítulo 11 do seu evangelho, João conta a história de Jesus ressuscitando seu amigo Lázaro. Por anos eu me fixei no milagre - Jesus trouxe o homem da morte - e nunca noticiei o drama por trás das cenas.

João nos conta que Jesus amou Lázaro e suas duas irmãs, Maria e Marta. Quando recebeu a notícia que Lázaro estava doente, ele não correu para lá. Na verdade, ele esperou dois dias inteiros antes de pegar a estrada. Quando chegou à cidade de Lázaro, o homem já estava morto há quatro dias.

Agora aqui é onde a história fica interessante. Quando a notícia que Jesus estava perto chegou, Marta foi ao seu encontro. Mas não Maria. Essa mulher que amava muito Jesus, que comprou um perfume caro para pôr em seus pés e secou-os com seus cabelos, ficou em casa. Jesus teve que perguntar por Maria. E mesmo que ela tenha respondido imediatamente ao seu chamado, suas primeiras palavras me falam sobre o estado da sua mente : “Senhor, se você estivesse aqui, meu irmão não teria morrido” (João 11:32). Em outras palavras “Como você pode levar tanto tempo para chegar aqui, Jesus? O quê você estava pensando?”

Eu então me identifico com Maria, porque estaria fazendo a mesma pergunta. Como deve ter sido terrível para ela, assistindo seu irmão ficar cada vez mais doente, e finalmente morrer, e Jesus nunca vir. Falei sobre se sentir desapontada.

O que eu realmente amo nessa história, entretanto, é a reação de Jesus. Ele é profundamente movido pelo desgosto de Maria. E ele ressuscita Lázaro. O que ele não faz é desprezá-la por seus questionamentos.

E isso traz conforto para meu coração duvidoso e questionador. Como Jesus entendeu a questão de Maria, eu acredito que ele entende a minha. Depois de tudo, ele me criou e me conhece - como diz o Salmo 139 - ele “percebe os meus pensamentos de longe”.

Eu tenho acreditado cada vez mais que enquanto Deus quer minha obediência, ele não requer que eu dê isso sem pensar. Como algum bom pai, ele ouve pacientemente minha questões e faz o melhor para respondê-las. E como qualquer criança, eu não vou ter sempre habilidade para entender essas respostas.

Mas, olhando para a Bíblia, estou em boa companhia. Moisés deu a Deus um período de sua vida antes de concordar em voltar ao Egito. Jonas não somente questionou o plano de Deus, como fugiu dele. E até Jesus, perfeitamente submisso à vontade do Pai, checou duas vezes para estar certo que não havia outra maneira de cumprir sua tarefa.

Algum dia eu vou trocar esse corpo finito por um infinito, e com isso eu vou ganhar entendimento completo do perfeito plano de Deus. Mas até esse dia vir, é bom saber que a paciência de Deus não irá acabar. Que ele não somente entende e aceita todas as minhas questões, ele me ama apesar delas.

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Como Deus cuida de mim



Ed René Kivitz

Que vantagem há em crer em Deus num mundo onde todos sofrem?

Letícia era uma mulher cheia de vida e entusiasmada com o evangelho recém descoberto. Ao final de 2004 me disse que queria ser batizada. Num sábado pela manhã, subiu em banquinho para arrumar a jardineira, e caiu do segundo andar de sua bela casa, falecendo logo em seguida, no Hospital.

Os amigos me disseram que nunca haviam visto o Flávio tão feliz como nesses dias. Três filhos cursando medicina e um feliz casamento, cheio de romance. Numa manhã de sábado, levantou-se para ir ao banheiro, e na volta para cama, desabou sob um infarto fulminante.

Marina tirou a sorte grande, diziam as amigas com uma certa dose de inveja. Conseguiu o marido dos sonhos: bonito, rico, bom caráter, e melhor de tudo, um cristão sério. Algumas diziam que merecia: bonita, séria com Deus e dedicada na Igreja (filha do Pastor), era uma menina sofrida - seu primeiro noivo, com quem teria se casado, faleceu. Agora estava feliz. Marcelo era o marido perfeito de um casamento perfeito que já durava 5 anos. Numa noite de quinta-feira Marina desconfiou de uma mensagem deixada no celular do marido, e no domingo seguinte estava sozinha. Marcelo confessou que a traía havia mais de 3 anos, e que agora estava apaixonado por uma namorada do trabalho, com quem estava se relacionando nos últimos 3 meses.

Acompanhei essas histórias (reais, porém com nomes fictícios) neste mês de fevereiro, logo após meu retorno das férias. Já não me espanto mais diante de notícias ruins, e infelizmente, desenvolvi um jeito de seguir em frente sem pensar muito em tudo o que vejo e vivencio no dia-a-dia da atividade pastoral. Faço minhas as palavras do Rabino Harold Kushner: "tenho muita dificuldade em dizer que a vida é bela e que Deus dá o que cada um merece e precisa. Inúmeras vezes deparei-me com famílias e até mesmo comunidades inteiras unidas em oração pela cura de um enfermo - e vi suas esperanças e orações serem completamente desprezadas. Vi pessoas "erradas" adoecerem, pessoas "erradas" serem brutalmente golpeadas pelo destino, jovens "errados" morrerem".

Há alguns anos minha mãe me presenteou com um pedaço de papel amarelado, onde alguém registrou minha primeira oração: "Papai do Céu, traz meu papai de volta para casa no Natal". Meu pai nunca voltou. Não comecei muito bem minha peregrinação pelos caminhos da oração e intercessão. Acho que meu pai foi um desses "jovens errados" referidos pelo Kushner.

Por essas e tantas outras, fui obrigado a re-significar o que me ensinaram a respeito de Deus e seus caminhos. Precisei buscar uma nova interpretação e compreensão para textos da Bíblia como:

Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos, pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite. É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera! [Salmo 1.1-3]

Pois no dia da adversidade ele me guardará protegido em sua habitação; no seu tabernáculo me esconderá e me porá em segurança sobre um rochedo. [Salmo 27.5]

Confie no Senhor e faça o bem; assim você habitará na terra e desfrutará segurança. [Salmo 37.3]

Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, descansa à sombra do Deus onipotente... Ele o livrará do laço do caçador e do veneno mortal. Ele o cobrirá com as suas penas, e sob as suas asas você encontrará refúgio; a fidelidade dele será o seu escudo protetor. Você não temerá o pavor da noite, nem a flecha que voa de dia, nem a peste que se move sorrateira nas trevas, nem a praga que devasta ao meio-dia. Mil poderão cair ao seu lado, dez mil à sua direita, mas nada o atingirá. Se você fizer do Altíssimo o seu abrigo, do Senhor o seu refúgio, nenhum mal o atingirá, desgraça alguma chegará à sua tenda. Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos; com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra." [Salmo 91]

Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais! [Mateus 10.28-31]

Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre. [Hebreus 13.8]

O que se entende por "o justo prosperará em tudo"? Isso significa que o cristão tem o fator Deus como vantagem competitiva quando em um processo de seleção para novo emprego ou numa concorrência no mercado? Que tipo de segurança é prometida por Deus? De quais pragas, pestes e desgraças estão livres os filhos de Deus? O fato de Deus saber quantos fios de cabelo temos significa que Ele está cuidando de nós nos mínimos detalhes? E esse tal "consentimento", quer dizer que Deus fica de braços cruzados enquanto as coisas ruins nos acontecem?

Além destes poucos textos (escolhidos aleatoriamente à título de exemplo), precisei buscar melhores explicações para o casuísmo bíblico. Em primeiro lugar, me embaracei com as biografias bíblicas: devemos considerar os relacionamentos entre Deus e homens como Abraão, Moisés, Davi e Paulo como paradigmáticos para o nosso próprio relacionamento com Deus? Deus cuida de nós da mesma maneira como cuidou de José no Egito, Daniel na cova dos leões, e Pedro na prisão?

Em segundo lugar, o casuísmo bíblico registra milagres extraordinários protagonizados não apenas por Jesus, mas também pelos profetas e apóstolos. Alguém seria capaz de demonstrar que os milagres ocorrem hoje na mesma intensidade e volume que ocorriam no período bíblico? Podemos esperar que Deus cure nossos enfermos da mesma maneira que Jesus curava às margens do Mar da Galiléia, já que "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre"?

Enfim, a pergunta que usei como porta de entrada para meu processo de re-significação da minha fé foi: Como Deus cuida de mim? Encontrei pelo menos quatro respostas.

1. Deus cuida de mim interferindo em minhas circunstâncias. Mas, dificilmente, ou mais precisamente quase nunca, sei com certeza se o que me aconteceu ou deixou de acontecer foi resultado de uma ação direta de Deus. Ao ler na Bíblia que nenhum pardal cai no chão sem o consentimento de Deus, e que até mesmo os cabelos da nossa cabeça estão todos contados por Deus, de modo que não precisamos viver amedrontados [Mateus 10.29-31], assumo isso como verdade e relaxo. Creio que devo viver seguro de que nada acontece em minha vida sem que Deus tenha, no mínimo, permitido que acontecesse. Deus nunca é pego de surpresa a meu respeito, e nenhuma de minhas circunstâncias escapa ao seu controle. Não me ocupo em ficar procurando a mão de Deus ao meu redor. Não preciso explicar todos os fatos como causados por Deus, nem tento ficar espiritualizando e explicando tudo o que se passa comigo como "Deus fez isso, Deus não fez aquilo". Minha sensação é mais ou menos a do menino que quer brincar à beira do mar e ouve o pai dizer: "Pode ir, o papai vai ficar aqui olhando você". No meu caso é assim: corro em direção à água e brinco despreocupado. Sei que meu Pai está olhando por mim, e que em qualquer eventualidade Ele não apenas saberá o que fazer, como também terá poder para fazer. Confio que Ele fará o melhor, pois além de sábio e poderoso, meu Pai tem mais uma característica: Ele me ama

2. Deus cuida de mim capacitando-me para enfrentar qualquer situação. É desta maneira que interpreto "tudo posso naquele que me fortalece" [Filipenses 4.13]. Esse "tudo posso" não diz respeito a passar no vestibular, ganhar um emprego, arrumar uma namorada, ou qualquer outra coisa a respeito da manipulação das minhas circunstâncias. "Tudo posso" significa que "aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura" [Filipenses 4.12]. Caso interpretássemos o "tudo posso" da maneira tradicional: "posso conseguir tudo o que quero", não teríamos como explicar porque o mesmo Paulo, apóstolo, não conseguiu se livrar de seu "espinho na carne". Nesse caso, o "tudo posso" significa "posso conviver com um espinho na carne", pois a graça de Deus é suficiente para me manter em pé e saudável mesmo convivendo com um espinho na carne, pois "o poder de Deus me faz forte" [2Coríntios 12.7-10].

3. Deus cuida de mim cooperando comigo para dar significado positivo a todas as minhas circunstâncias, inclusive para transformar em bem o mal que veio contra mim. O ensino bíblico que promete que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" deve ser interpretado à luz de duas observações. Em primeiro lugar, o "bem" prometido não é circunstancial, isto é, "Deus impede você de ganhar 1.000 porque Ele quer lhe dar 100.000". O conceito que Deus tem de "bem" é fazer de mim alguém semelhante ao filho dEle, para que Jesus seja o primogênito dentre muitos irmãos. Mas em segundo lugar, a promessa de que todas as coisas cooperam para o bem", geralmente compreendida como "Deus manipula todas as circunstâncias para que seus filhos sejam favorecidos no final" pode e deve ser interpretada de outra maneira, como, por exemplo, sugere a nota de rodapé da Bíblia Nova Versão Internacional: "Sabemos que em todas as coisas Deus coopera juntamente com aqueles que o amam, para trazer à existência o que é bom" [Romanos 8.28,29]. Essa tradução apresenta Deus, não como um solucionador de problemas ou manipulador de circunstâncias, mas como parceiro dos seus filhos, ocupado em conduzí-los à maturidade e torná-los capazes de andar com suas próprias pernas mesmo em situações difíceis e dias maus. Creio que esta é a experiência de Davi: "Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem" [Salmo 23.4], e também a convicção de José, no Egito: "vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem" [Gênesis 50.20]. Creio que por trás da minha história, Deus está escrevendo a dEle, e que em alguns momentos, mesmo o mal que me acontece, é usado por Deus para o meu bem.

4. Finalmente, Deus cuida de mim preservando minha integridade espiritual. Sei que o ser humano é uma unidade indivisível corpo+espírito, mas mesmo assim escolho a palavra "espiritual" para expressar a idéia de que o mal pode tocar meu corpo, meus bens, minhas circunstâncias, mas não pode causar nenhum dano em meu relacionamento com Deus ou abalar minha identidade mais profunda, que a Bíblia chama de "homem interior" [2Coríntios 4.16-18], a menos que eu permita. Nesse sentido é que todos os cristãos somos mais do que vencedores, pois sabemos que "nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" [Romanos 8.38,39].

Essa "proteção espiritual" é o real significado do Salmo 91, por sinal um Salmo messiânico, que promete que Jesus "pisará o leão e a cobra; pisoteará o leão forte e a serpente" [Salmo 91.13]. Por isso João, apóstolo, expressou sua convicção que "todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge" [1João 5.18].

Destas maneiras creio que Deus cuida de mim: interferindo em minhas circunstâncias, dando-me condições de viver bem em qualquer situação, cooperando comigo para extrair o bem de tudo o que me acontece, e cerceando todo o poder do mal contra mim, de modo que nosso relacionamento de amor jamais seja abalado.

Gosto de Viktor Frankl quando diz que "se a situação é boa, desfrute-a; se a situação é ruim, transforme-a; se a situação não pode ser transformada, transforme-se". Isto é, quando amanhece chovendo, e Deus, em sua perfeita economia, decide não atender meu pedido por sol, eu saio na chuva mesmo. Ultimamente, para falar a verdade, quando amanhece chovendo, eu fico um bom tempo na janela tentando perceber de Deus se o melhor que poderia acontecer não seria a chuva. Já aprendi que não vim ao mundo para fazer pic-nic.

sábado, 14 de maio de 2011

Uma história por trás da história


Por Marcos Feitosa


(Lucas 17:11-19)

Ah, o senhor é o doutor que anda ouvindo as histórias da pessoas que estiveram com Jesus de Nazaré?!… Lucas, não é? Me falaram do senhor. Sim, eu estive com ele.

Sim, é também verdade: fui leproso. Vivia isolado de todos. Mas o que mais me doía era estar distante de minha esposa e filha. Sabe, eu amo minha família. Eu e minha esposa vivemos durante muito tempo sem filhos. Quase dez anos. Fizemos de tudo: tomamos ervas, fomos uma vez a Jerusalém pedir ao sumo-sacerdote uma benção especial. Fazíamos promessas e nada.

Até que um dia escutei numa sinagoga a história de Ana. Ouví que quando uma pessoa abre o coração a Deus e conta seus problemas ele ouve a oração do aflito. Seguimos o exemplo de Ana. Minha esposa me diz que naquela mesma noite ela concebeu. Eu não entendo estas coisas de mulher, mas acredito nela.

O senhor não sabe com que alegria vivemos os nove meses antes do nascimento de nossa filha. Eu confesso que esperava um filho, mas quando ví Rebecca, a amei imediatamente. Eu a ví crescer, dar os primeiros passos, o primeiro sorriso. O senhor não tem idéia da alegria que sentí quando a ouví chamar “papai” pela primeira vez.

E de repente, a tragédia.

As manchas. Eu não acreditava: aquilo não podia estar acontecendo comigo. Mas estava. Daí em diante foi uma tristeza só. Confirmada a lepra, fui pronunciado impuro e tive que afastar-me da minha família. Minha filha, ainda pequena, não entendeu porque o pai se afastava. Aquilo me destroçava o coração.

Muita vezes, no início, eu passava pela porta de minha casa só com a esperança de ver minha filha. Até que os vizinhos descobriram e aí ficou impossível.

Comecei a viver só. Mas a vida solitária é muito difícil. Fui viver com os outros leprosos numa caverna nos arrebaldes da cidade. Eu era o único samaritano, mas na desgraça, eles não se importaram muito. O senhor não tem idéia de como é ser leproso. Minha vida de homem havia cessado, a menos que me envolvesse com uma leprosa, e isso eu não queria. Minha esposa vinha ver-me constantemente, até que eu a proibí de acercar-se. Uma vez por mês ela vinha e trazia minha filha e eu as via de longe. Aqueles eram os melhores e piores momentos de minha vida.

Depois de uns cinco anos leproso, a gente perde a esperança. Depois de dez, só resta esperar a morte. Eu vegetava, esperava morrer.

Até que nos falaram dele.

Diziam que ele ensinava maravilhosamente. Comentavam que ele tinha curado pessoas. Comentavam até que tinha ressuscitado mortos. Fomos, eu e meus companheiros uma vez ouví-lo. O que me impressionou nele foi sua voz, calma e firme.

Creio que o escutá-lo, aliado às conversas sobre suas curas, fez nascer em mim algo morto há muito tempo: a esperança. Decidí ir procurá-lo e outros se juntaram a mim.

Éramos dez. Isso nos dava segurança. Fomos pelas trilhas nas montanhas porque soubemos que ele estava indo na direção de Jerusalém. Paramos numa aldeia chamada Sidon.

Dois dias depois ele chegou. Ficamos numa pequena elevação na margem do caminho de entrada na aldeia. Uma pequena multidão o seguia. Aí algo muito forte tomou conta de mim e sentí que poderia ser curado. Então comecei a gritar o mais alto que podia o que costumava dizer nas minhas orações a Deus no início da lepra. Não achei que estivesse blasfemando. Ele poderia ser o Mashiah, por que não? Gritei: “Jesus, filho de Daví, tem misericórdia de nós!” Os outros companheiros pararam e me olharam e talvez porque eu disse “nós” em vez de “mim”, todos se uniram a passaram a gritar em uníssono o mesmo que eu.

Alguns se viraram para ver o que era. E aí ele nos viu. Os meus amigos me disseram que não perceberam, mas estou certo que o ví sorrir. E lá de baixo, ele nos falou. Para nossa frustração, ele simplesmente disse que devíamos nos mostrar aos sacerdotes. “Para que?” disseram meus companheiros, “Para que nos pronunciem impuros outra vez?” Caminhamos de volta, tristes. E de repente, veio à minha mente que havia uma outra razão para um leproso se apresentar aos sacerdotes: quando estivesse limpo!

Falei isso aos outros com tanto entusiasmo que resolvemos caminhar na direção de Jerusalém. Foi aí que algo extraordinário aconteceu. Sabe, lepra não é algo que só os outros percebem. A gente sente também. Uma ausência na periferia do corpo, uma espécie de sentir que não sentimos. E de repente, sentí meus dedos, minha pele, o contato da roupa, a consciência do meu corpo. Ai, que sentimento, doutor!… A sensação de estar outra vez em casa, de estar no corpo da gente…

Olhei para minhas mão e gritei: “Estou curado!”. Os outros fizeram o mesmo. Aí foi uma festa. Saímos todos em desabalada carreira na direção de nossas casas. Eu só pensava em minha esposa e filha.

E de repente um pensamento. A alegria de voltar à minha casa depois de treze anos, só fora possível por causa do Nazareno. Só Deus podia dar presente desta ordem. E aí, por mais que eu morresse de vontade de ver minha família, tinha de agradecer-lhe. Voltei para a aldeia.

E ao entrar, logo o ví. Ninguém mais precisava me dizer quem ele era. Era mesmo o Mashiah. Cheguei junto dele e me prostrei. Nem me importei com as pessoas. Ele me sorriu e pondo suas mãos sobre minha cabeça, perguntou onde estavam os outros. Respondí. E ele se voltando disse que só eu, um samaritano, tinha voltado para agradecer-lhe. Toque e reconhecimento público. Foi demais para um dia só. Ele me disse que minha fé me salvara. Eu sabia, sentia isso.

Não sei se minha história interessa ao Senhor, doutor Lucas, mas escreva isso. Minha vida e a de minha família não são mais as mesmas depois que o encontrei. E olhe: se o senhor quiser saber mais o que aconteceu depois, e do que significou sua presença entre nós, apareça hoje à noite aqui na minha casa.
Como?! Mesmo?! O senhor também é seguidor dele? Então me dê lá um abraço!
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