sábado, 17 de setembro de 2011

Falando de inveja



Por Esther Carrenho

A inveja é um dos sentimentos mais difíceis de serem identificados e reconhecidos. Ignoramos que não há ninguém que respire que seja tão bem resolvido na vida a ponto de nunca desejar, pelo menos um pouco, daquilo que se admira no outro. O sentimento da inveja é filho da admiração – o que não significa que não exista admiração sem inveja. Mas onde existir a inveja, com certeza, houve a admiração antes. A inveja, enquanto sentimento, não é boa nem má. É apenas o desejo de possuir ou ser o que o outro tem ou é. O que pode ser mau ou bom é o comportamento que adotarmos diante desse sentimento. Traçado o limite entre a admiração e a inveja, o que importa é cada um identificar no próprio coração qual é a reação que aflora e que poderá determinar seu comportamento.

Podemos reagir de três formas quando identificamos e aceitamos em nós mesmos o sentimento de inveja. A primeira forma é reconhecer que se quer o que o outro é ou tem, avaliando as possibilidades reais de ser ou possuir o que admiramos no próximo. Posso desejar ter um carro de luxo caro, mas quando faço as contas descubro que, com o salário que ganho, é impossível adquirir um. Diante disso, há quem abra mão de outras coisas, esforça-se mais e se sacrifique para conquistar aquele objetivo. Neste caso, o sentimento de inveja foi positivo: um estímulo para o uso dos próprios recursos no empenho de conseguir o que se deseja.

A segunda reação é quando admiramos e desejamos o que outro tem, mas diante da impossibilidade de tê-lo passamos a desvalorizar e criticar aquilo que não temos condições de adquirir. No caso do carro, o invejoso diria: “Este carro não presta. Consome muito combustível, sua manutenção é caríssima e ocupa muito espaço.” Às vezes, esse tipo de comportamento até começa com um elogio, mas logo em seguida vem a crítica, o menosprezo. E a terceira maneira de reagir diante da inveja é quando, diante da impossibilidade de conseguir o que desejamos, adotamos um comportamento destrutivo em relação à pessoa e ou aos bens que são alvo dos nossos desejos. É o caso da pessoa, que muitas vezes, até sem perceber, assume uma postura de: “Já que não posso ter, você também não terá.”

O lado bom da história é que podemos tirar proveito quando detectamos os sentimentos de inveja no nosso coração. Eles apontam para uma deficiência na capacidade de reconhecer o nosso próprio valor, o nosso potencial, e desenvolvê-lo de tal forma que se tornem uma fonte de contentamento e realização. Enquanto simplesmente invejamos o próximo, tiramos o foco do que somos e temos, e gastamos inutilmente uma energia que poderia ser canalizada para o desenvolvimento das nossas habilidades e talentos. Tentamos a todo custo ter a vida do outro. E nessa tentativa perdemos a oportunidade de sermos nós mesmos.

Um dos provérbios do rei Salomão já nos adverte que a inveja é a podridão dos ossos. A Bíblia tem também um bom exemplo disso. Quando o filho pródigo da parábola – aquele que saiu de casa à revelia do pai e consumiu toda sua herança – voltou para casa, ganhou um banquete de recepção. Seu irmão mais velho, que sempre ficou ao lado do pai, sentiu-se injustiçado – afinal, embora tivesse permanecido sempre em casa, seguindo fielmente as ordens paternas, nunca tivera uma festa daquelas. A resposta do pai esclarece que o filho mais velho é que não sabia desfrutar do que tinha: “Meu filho, tudo que é meu é seu”.

O que na realidade aconteceu foi que o irmão mais velho não conseguiu tomar posse do que tinha conquistado por direito. E este é o pior castigo para quem é dominado pelo sentimento de inveja – ele não usa e nem desfruta do que tem por direito, e também não consegue festejar e se alegrar com o que o outro tem. E ainda coloca a culpa em terceiros. Não sabemos qual foi a resposta deste jovem para o pai. Seria muito bom se ele tivesse reconhecido que tinha inveja do presente dado ao irmão e dificuldade em usufruir o que já lhe pertencia. É claro que o pai desta parábola contada por Jesus representa Deus, que sempre nos acolhe e nos restaura diante de nosso arrependimento.

Não há duas pessoas iguais no mundo. Cada um tem personalidade e habilidades que são únicas, mas que esperam ser reconhecidas e desenvolvidas. O ideal seria que o jeito de ser de cada um, bem como suas habilidades, recebessem um olhar de aprovação desde o nascimento. É assim que aprendemos desde cedo a nos alegrar com o que somos. Mas nem sempre é isso que acontece. No desejo de agradar, deixamos de lado o que naturalmente somos e nos esforçamos para sermos iguais àqueles que são apontados como modelos, seja pelo que são ou pelo que têm. A solução, depois do estrago feito, é cada um se reencontrar no próprio espaço, onde possa ser ele mesmo, com todas suas características e talentos – tanto os natos como os aprendidos.

Sempre é possível resgatar quem de verdade se é. E esta é uma busca que o indivíduo deve fazer para dentro de si mesmo, para, a partir daí, se doar e ser um caminho de bondade e amor para com aqueles que vivem à sua volta. Assim, faremos para nós mesmos nossas próprias festas e teremos recursos para nos alegrarmos e celebrarmos a alegria dos outros.

sábado, 10 de setembro de 2011

À Brasileira



Por Ariovaldo Ramos

Vou contar-lhes a história de um homem doente:
Não era qualquer ente, embora fosse comum.
Ele morava na Galiléia, em Cafarnaum.
Ele tinha 4 amigos, parteiros como só!
Parteiros dão a luz, não nos deixam desistir!
Põem a gente no caminho, insistem pra gente ir!
Hã amigos coveiros também, esses não digo que se tenha...
Transformam sonhos em lenha, pra evitar-nos o vexame!
Não sabem que todo vivente tem de passar por exame!
Que de queda em levantamento,
É que surge o monumento; e o sujeito faz o nome!

O moço não andava, e nem tinha esperança!
Mas tinha 4 amigos... Desde o tempo de criança!
Que nunca desistiram do amigo enfermiço!
Mantiveram o tento atento, pois tinham compromisso:
Esperavam um movimento do Deus que a tudo conduz!
E Ele se moveu, desde Nazaré, com o nome de Jesus!
E lá vão eles a carregar, num catre cadeia,
O paralítico que os tinha, amigos à mancheia!
Mas a casa estava lotada, e os corações empedernidos;
Estavam todos acomodados, não ligaram pros amigos!
Que gritaram e clamaram frente à necessidade!
Mas quem fura o bloqueio da insensibilidade?

Vamos ao telhado, cada um use o seu dom!
Façamos um buraco onde esteja o pregador!
É provável que tanto mover faça calar o seu som...
Mas se Ele veio de Deus, então veio por amor!
E não terá outra reação, senão acolher a nossa dor.
E foi assim que se fez, e foi assim que deu certo!
Jesus olhou pra cima, Jesus mirou o teto.
Viu, no catre, um doente, e, nos amigos, fé fervente.
Jesus deu um sorriso, não ligou para o repente!
Estava ali pra isso mesmo...
Para que tudo o que falava, virasse vida em gente!

Imagine a surpresa daquela população!
Que não ouviu aos amigos, na sua consternação!
Observando a Jesus parando a sua atividade,
Para atender o suplico de amigos de verdade!
E Jesus surpreendeu: não falou palavra de cura!
E com aparente secura, falou palavra de perdão!
E reagiram os fariseus: vejam que ousadia!
E entreolharam-se os amigos: como é que ele sabia?
Ora, só há cura porque houve perdão!
Porque o sangue é conhecido antes do mundo a fundação!
E foi o Cristo, que propôs essa questão.

E o perdão, que cura... Levanta e caminha.
E, como disse o poeta, vão os 5, a pular amarelinha!
E enquanto pulam cada casa, veem o fim da linha:
Vivem o protótipo da Igreja, isso é preciso que se veja!
É o sonho de Jesus... Um mundo de amigos!
O fim dos desvarios antigos: fim do ódio e da peleja!

É o que nos faz cantar aqui, no confim de todo lugar,
Com frevo no coração, no suingue do baião;
Com um samba bom pra se curar!
Soando nossos tambores, erguemos a humanidade de dores,
Para que Deus, do alto, veja... A fé de sua igreja!
A clamar para o homem, liberdade!
E Deus, que ama de verdade,
Assim como, um dia disse luz, dirá, com certeza:
Meus filhos... Assim seja!

sábado, 3 de setembro de 2011

Fé é também obedecer


Por Ronaldo Lidório

Hebreus é um dos livros mais fascinantes de toda a Bíblia e nos conduz a crer que a missão da Igreja está fundamentada em Cristo. Este livro fortemente cristocêntrico apresenta Jesus logo no primeiro capítulo como O resplendor da glória, Herdeiro de todas as coisas, Sustentador do universo, Purificador de pecados, Majestoso e Superior aos anjos.

Inicia com dois versos que falam que Deus havia outrora falado e que hoje o faz através do seu Filho, Jesus Cristo, expondo que a fé cristã não é apenas um aglomerado de informações históricas mas é para hoje, nossos dias, nosso tempo.

Um dos principais temas deste livro é a fé. Enquanto a fé crê no invisível a superstição crê no inexistente. No capítulo 11 encontramos a galeria dos heróis da fé, aqueles que traduziram o conhecimento de Deus para a vida com Deus.

Se estamos sem direção nos lembramos de Abraão que saiu sem saber para onde ir, mas na dependência de Deus seguiu para a terra prometida. Se estamos no fim da vida nos lembramos de Jacó, que terminou seus dias prostrado em seu cajado, adorando ao Senhor. Se temos grande responsabilidade sobre nós lembramos de Moisés conduzindo uma nação inteira durante 40 anos de peregrinação por um deserto. Se somos discriminados lembramos de Raabe que era uma prostituta mas foi escolhida por Deus para ser da linhagem de Davi. A fé é transformadora e consoladora, fundamentada em um Deus que controla o incontrolável.

Hebreus afirma que eles creram, portanto, obedeceram. Assim nos apresenta uma fé não utilitária, fundamentada nos desejos humanos, mas sim obediente, fundamentada nos desejos de Deus. Não é manipulada pelo homem mas sim um instrumento para que o homem seja usado por Deus. Desta forma Hebreus nos fala que pela fé ruíram as muralhas de Jericó, subjugaram reinos, obtiveram promessas, fecharam bocas de leões, mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos. Esta fé nos ensina que o impossível pode, a qualquer momento, acontecer, se o Senhor assim desejar.

Há, porém, o outro lado das ações fundamentadas na fé, pois Hebreus nos diz que estes que creram, possuidores de fé,foram torturados, passaram pela prova de açoites, foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos ao fio da espada, andaram peregrinos. É a fé que nos prepara para continuar crendo mesmo no vale da sombra da morte. Uma fé que não apenas produz resultados mas prepara o cristão para passar pelo vale do sofrimento sem deixar de crer.

Hebreus nos diz também que somos estrangeiros e peregrinos. Refere-se àqueles que estão de passagem pela terra e nos lembra que não é aqui que devemos guardar nossos mais preciosos investimentos, que os bens desta terra são transitórios, que a eternidade nos aguarda. Ajuntemos tesouros nos céus.

Fé e fidelidade não são apenas termos etimologicamente próximos. Seus conceitos na Palavra caminham de mãos dadas. Devemos, portanto, crer para a fidelidade e não apenas para nosso contentamento. Abraão, que creu, saiu de sua terra sem saber para onde ir . Obedeceu. Uma igreja que crê é uma igreja que sai para mostrar Jesus ao mundo, que nega a si mesma, seus interesses e tesouros transitórios para investir na eternidade, que não deseja ser honrada na terra mas sim ser sal da terra. Crer é confiar, mas não apenas isto. É também permanecer no caminho e obedecer.

sábado, 27 de agosto de 2011

Deus e o sofrimento humano


Ed René Kivitz

Se Deus é onipotente, pode tudo. Se pode tudo, porque não evita o sofrimento? Se não o evita, é sinal de que ou não é onipotente ou não é bom.

Acho que Epicuro foi quem formulou a questão a respeito da relação entre a onipotência e a bondade de Deus. A coisa é mais ou menos assim: se Deus existe, ele é todo poderoso e é bom, pois não fosse todo-poderoso, não seria Deus, e não fosse bom, não seria digno de ser Deus. Mas se Deus é todo-poderoso e bom, então como explicar tanto sofrimento no mundo? Caso Deus seja todo-poderoso, então ele pode evitar o sofrimento, e se não o faz, é porque não é bom, e nesse caso, não é digno de ser Deus. Mas caso seja bom e queira evitar o sofrimento, e não o faz porque não consegue, então ele não é todo-poderoso, e nesse caso, também não é Deus. Escrevendo sobre a Tsunami que abalou a Ásia, o Frei Leonardo Boff resume: "Se Deus é onipotente, pode tudo. Se pode tudo porque não evitou o maremoto? Se não o evitou, é sinal de que ou não é onipotente ou não é bom".

Considerando, portanto, que não é possível que Deus seja ao mesmo tempo bom e todo-poderoso, a lógica é que Deus é uma impossibilidade filosófica, ou se preferir, a idéia de Deus não faz sentido, e o melhor que temos a fazer é admitir que Deus não existe.

Parece que estamos diante de um dilema insolúvel. Mas Einstein nos deu uma dica preciosa. Disse que quando chegamos a um "problema insolúvel", devemos mudar o paradigma de pensamento que o criou. O paradigma de pensamento que considera o binômio "onipotência/bondade" como ponto de partida para pensar o caráter de Deus nos deixa em apuros. Existiria, entretanto, outro paradigma de pensamento? Será que as palavras "onipotência" e "bondade" são as que melhor resumem o dilema de Deus diante do mal e do sofrimento do inocente? Há outras palavras que podem ser colocadas neste quebra-cabeça?

Este problema foi enfrentado por São Paulo, apóstolo, em seu debate com os filósofos gregos de seu tempo. A mensagem cristã era muito simples: Deus veio ao mundo e morreu crucificado. Pior do que isso: Deus havia sido crucificado num "jogo de empurra" entre judeus e romanos, isto é, diferentemente dos outros deuses, o Deus cristãos havia sido morto não por deuses mais poderosos, mas por homens. Sendo Deus, jamais poderia ser morto por mãos humanas, e sendo o Deus onipotente, jamais poderia nem mesmo ser morto. Paulo, apóstolo, estava, portanto, diante de um dilema semelhante ao proposto por Epicuro: Deus era uma impossibilidade filosófica.

Foi então que os apóstolos surgiram com uma resposta tão genial que os cristãos acreditamos que foi soprada pelo Espírito Santo: antes de vir ao mundo ao encontro dos homens, Deus se esvaziou da sua onipotência,[i] isto é, abriu mão do exercício de sua onipotência, e por amor,[ii] deixou-se matar por eles.[iii] (Eu disse que "Deus abriu mão do exercício de sua onipotência", bem diferente de "Deus abriu mão de sua onipotência").

O apóstolo Paulo admitia que não era possível pensar em Deus sem considerar o binômio bondade/onipotência. Optou pela palavra amor, assim como o apóstolo João, que afirmou "Deus é amor",[iv] e afirmou que Jesus de Nazaré foi Deus encarnado na forma de Amor, e não Deus encarnado na forma de Onipotência.

Isso faz todo o sentido. Um Deus que viesse ao encontro das pessoas em trajes onipotentes chegaria para se impor e reivindicar obediência irrestrita, impressionando pela sua majestade e força sem iguais. Jung Mo Sung adverte que "a contrapartida do poder é a obediência, enquanto a contrapartida do amor é a liberdade".[v] Também assim pensou o apóstolo Paulo, ao afirmar que o que constrange as pessoas a viver para Deus é o amor de Deus (demonstrado na morte de Jesus na cruz),[vi] e nunca o poder de Deus.

Na verdade, "Deus não tinha escolha". Ao decidir criar o ser humano à sua imagem e semelhança, deveria cria-lo livre. Desejando um relacionamento com o ser humano, deveria dar ao ser humano a liberdade de responder voluntariamente ao seu amor, sob pena de ser um tirano que arrasta para sua alcova uma donzela contrariada. Somente o amor resolveria esta equação, pois somente o amor dá liberdade para que o outro seja livre, inclusive para rejeitar o amor que se lhe quer dar.

Ricardo Gondim me introduziu ao pensamento de Comte-Sponville.[vii] Este ateu confesso (como bom francês) discorre a respeito do amor divino como poucos que já li. Acredita que o amor divino é um ato de diminuição, uma fraqueza, uma renúncia. Usa os argumentos de Simone Weil: "a criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de renúncia. Deus e todas as criaturas é menos do que Deus sozinho. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser. Esvaziou-se já nesse ato de sua divindade. É por isso que João diz que o Cordeiro foi degolado já na constituição do mundo. Deus permitiu que existissem coisas diferentes Dele e valendo infinitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo, como Cristo nos prescreveu nos negarmos a nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor para nos dar a possibilidade de nos negar por Ele. As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância voluntária, esse apagamento voluntário de Deus, sua ausência aparente e sua presença secreta aqui embaixo, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da grande Revelação. As religiões que representam a divindade como comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo são falsas. Mesmo que monoteístas, são idólatras".

Você já imagina onde quero chegar. Isso mesmo, entre a onipotência e a bondade de Deus existe a liberdade do homem, e o compromisso de Deus em respeitar esta liberdade. Isso ajuda a entender porque existe tanto sofrimento no mundo. O mal não procede de Deus e não é promovido ou determinado por Deus. O mal é conseqüência inevitável da liberdade humana, que teima em dar as costas para Deus e tentar fazer o mundo acontecer à sua própria maneira. Diante do mal e do sofrimento, o Deus com os homens, encarnado em Amor, também sofre, se compadece, tem suas entranhas movidas de compaixão.[viii]

Mas você poderia perguntar, porque razão Deus não acaba com o mal. Isso é simples: Deus não acaba com o mal porque o mal não existe. Marilena Chauí diz que "o mal é o pecado, isto é, a transgressão da lei divina que o primeiro homem e a primeira mulher praticaram. Sua punição foi o surgimento de outros males: morte, doença, dor, fome, sede, frio, tristeza, ódio, ambição, luxúria, gula, preguiça, avareza. Pelo mal, a criatura afasta-se de Deus, perde a presença divina e a bondade original que possuía. O mal, portanto, não é uma força positiva da mesma realidade que o bem, mas é pura ausência de bem, pura privação do bem, negatividade, fraqueza. Assim a treva não é algo positivo, mas simples ausência da luz, assim também o mal é pura ausência do bem. Há um só Deus, e o mal é estar longe e privado dele, pois ele é o bem e o único bem". Em outras palavras, o mal não existe, o que existe é o malvado, aquele que faz surgir o mal porque se afasta de Deus, o supremo e único bem.

Ariovaldo Ramos resumiu isso ao afirmar que "para acabar com o mal, Deus teria que acabar com o malvado". Mas, sendo amor, entre acabar com o malvado e redimir o malvado, Deus escolheu sofrer enquanto redime, para não negar a si mesmo destruindo o objeto do seu amor. Por esta razão Deus "se diminui", esvazia-se de sua onipotência, e se relaciona com a humanidade com base no amor, fazendo nascer o sol sobre justos e injustos,[ix] e mostrando sua bondade, dando chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo sustento com fartura e um coração cheio de alegria a todos os homens.[x]

É uma pena que Epicuro não tenha lido os apóstolos cristãos, não tenha corrido no parque ao lado de Ricardo Gondim, e não tenha ouvido Ariovaldo Ramos pregar, e nem tenha assistido a aula que tive com Jung Mo Sung esta semana.

[i] Carta aos Filipenses 2.6-8[i]
[ii] Evangelho de João 3.16
[iii] Atos dos Apóstolos 2.23
[iv] Primeira Carta de João 4.7
[v] Notas de sala de aula: Pós Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo
[vi] 2Coríntios 5.14,15
[vii] Recomendo Comte-Sponville, André, Pequeno tratado das grandes virtudes, São Paulo: Martins Fontes, 1995, especialmente o capítulo 18: Amor.
[viii] Evangelho de São Mateus 9.36; 14.14
[ix] Evangelho de São Mateus 5.44,45
[x] Atos dos Apóstolos 14.17

sábado, 20 de agosto de 2011

Pondera tuas veredas


Por Valdemar Figueredo

Quem opta pelo caminho estreito adere a uma guinada radical na vida. Muitas pessoas vivem aflitas porque constatam que estão paradas na esquina e não conhecem o caminho.

Viver é escolher uma direção e seguir. Na Bíblia Sagrada, é muito recorrente a representação da condução da vida através da imagem de um caminho, e o tempo da existência humana como uma jornada, que pode ser longa ou curta. Os obstáculos da vida são tratados como buracos e abismos. A tomada de uma decisão é como dar passos seguros; o arrependimento, como o retorno por uma estrada solitária. A reconstrução de uma cidade é como a pavimentação de uma estrada. O céu, como ruas de cristais e pedras preciosas.

A força dessa imagem também está bem presente na literatura, nas suas diferentes expressões. Para ficarmos com um exemplo, diz o poeta Carlos Drumonnd de Andrade: “No meio do caminho tinha uma pedra; tinha uma pedra no meio do caminho; tinha uma pedra; no meio do caminho tinha uma pedra...”. Sendo caminho a palavra-chave nos seus múltiplos sentidos literários, cite-se também o Poeminha do contra, de Mário Quintana: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão... Eu passarinho!”

É fato que uma estrada bem sinalizada e adequadamente pavimentada ajuda quem caminha a percorrer as distâncias e a achar o sentido correto. Muitas pessoas vivem aflitas porque constatam que estão na esquina e não conhecem o caminho. Colocar o pé em determinada estrada define, além do ponto aonde se pode chegar, o cenário com o qual se conviverá pelo caminho. Admitimos que os próximos passos nos levarão a novas e imprevistas situações – contudo, onde estiver a expressão humana, aí haverá o aleatório, o imponderável, o mistério, a surpresa, o fortuito, o acidental.

Na versão do existencialismo filosófico, estamos destinados à liberdade. Isto é, de acordo com a representação da vida com a qual estamos lidando, temos a responsabilidade frequente de escolher caminhos e assumir direções. Há quem se apavore com o desconhecido, mas existem aqueles que encaram os caminhos novos como o próprio fascínio que é viver.

Jesus mencionou dois caminhos opostos: um largo e um estreito. Enquanto o primeiro conduz ao desperdício da vida, o outro conduz à vida plena. No ensino do Mestre, a força atrativa da multidão seduz a muitos. Neste plano, funciona a lógica de que o caminho bom é aquele que exige o menor esforço. Então, basta seguir; nada de ponderação. Não adianta pensar em consequências, uma vez que a pulsação do momento justifica os passos de agora. A multidão é pouco afeita às placas educativas; prefere os letreiros iluminados. Aquele que adere aos passos da multidão não pergunta pelo sentido certo, mas reclama aceitação. Só que quem vive para ser aceito pode chegar ao fim e concluir que não viveu a sua própria vida.

Já o caminho estreito acentua a responsabilidade de cada escolha. Quem o segue jamais perde a noção de si mesmo, ainda que veja os outros que no caminho estão. Jesus não fala do caminho estreito como se fosse martírio autoimposto. A realidade não é encoberta: viver é correr riscos frequentes. Quem opta pelo caminho estreito adere a uma guinada radical na vida. Enquanto na via larga segue-se a multidão, no rumo estreito segue-se aos passos de Cristo.

Quem nunca se sentiu perdido na vida, sem saber a direção, com a impressão de que cochilou e passou do ponto? Pois é nestas horas-limite que olhamos para Deus, erguemos as mãos trêmulas e pedimos: “Guia-nos pelo caminho eterno!”. O grande perigo é continuar seguindo, mesmo quando não se sabe para onde. Os humildes aprendem que retratar-se é melhor do que andar perdido. Seria ótimo se desenvolvêssemos a disposição de apresentar nossa vida a Deus, a fim de que ele a corrigisse sempre que necessário. Todavia, essa postura humilde não encontra eco na vida moderna, em que todos são estimulados a escolher o seu próprio caminho e seguir até o fim, sem olhar para trás nem para os lados.

Aquele que se propõe a seguir a jornada ao lado do Senhor encontra o estímulo certo nas Escrituras: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal” (Provérbios 3.5-7). Voltar atrás nem sempre é possível, mas os tropeções que demos não nos deixam derrubados para sempre. E nunca é tarde para atentar ao caminho que se segue: “Pondera a vereda de teus pés, e todos os teus caminhos sejam retos. Não declines nem para a direita nem para a esquerda; retira o teu pé do mal” (Provérbios 4.26,27).

sábado, 13 de agosto de 2011

As Vozes dos Pais


Por Daniel Sampaio

Numa sociedade em rápida mudança, com os adolescentes a socializarem-se fora do quadro tradicional de referência (família e escola) e a viverem experiências novas que os adultos desconhecem (Internet), vale a pena os pais lutarem para que a sua voz seja ouvida? Estou convicto que sim e digo mais: nunca, como agora, é crucial que não desistam, porque a sua possível perda de influência pela chegada da "segunda família" deve levar a novas formas de comunicar e de educar.

O tema foi-me sugerido no debate que se seguiu ao lançamento de mais dois livros de Pedro Strecht , "Final feliz" e "Gosto de ti como és" ( Editora Assírio & Alvim). Nessa altura falei das vozes dos pais juntos dos filhos nos dias de hoje e, sem querer simplificar as ideias lá expostas por vários participantes, resolvi trazê-las para aqui.

A melhor voz dos pais deve ser baixa. É difícil e pouco oportuno gritar o amor e esse deve continuar a ser o sentimento predominante entre pais e filhos. Quantas discussões acabariam mais depressa se todos se habituassem a não gritar e a expressar os seus pontos de vista de modo firme, mas calmo! Depois, convém que seja a voz da não repetição. Ditas as coisas uma vez, não interessa massacrar: ninguém muda só porque houve muitas vezes o mesmo ralho ou a mesma recomendação. Na interacção com filhos adolescentes, os pais repetem sem cessar directrizes educativas que sabem já não ser eficazes; e os filhos respondem com promessas que sabem à partida não ir cumprir.

E a voz do exemplo, claro. A coerência dos pais é vital: se o comportamento dos pais for o oposto do que recomendam o êxito será pouco provável. Se o pai consome haxixe o seu discurso "anti-drogas" será inútil. Não esquecer a voz do poder: sempre que estiver em causa a saúde e a segurança dos filhos, não há que hesitar, não é o momento de negociar! E aí deve entrar a voz da segurança: a imaturidade de muitos pais e a sua identificação romântica com os filhos ao transformá-los em amigos, com o consequente apagamento do fosso intergeracional, tem conduzido a famílias sem limites internos, onde ninguém sabe o seu papel, nem as barreiras que deve respeitar.

A voz da disciplina, na família e na escola, tem de se fazer ouvir a cada momento: não a disciplina do passado, baseada no medo e na sistemática humilhação dos mais novos, mas a disciplina construída através de uma relação de respeito mútuo, a ter como objectivo fundamental não o castigo ofensivo, mas a reconciliação futura e, sobretudo, a experiência do reconhecimento do erro e a procura de alternativas de comportamento.

Há vozes dos pais boas e más, os leitores que perdoem esta linguagem simplista. São vozes más as que fomentam a intriga (por exemplo, quando os pais recolhem informações nos amigos às escondidas dos filhos), a inveja, a culpa ou a acusação. Quando os pais projectam nos filhos os sentimentos negativos que estão a sentir em relação a outras pessoas e os acusam de coisas que só na aparência dizem respeito aos mais novos. Ou quando os pais, dominados pelos seus próprios sentimentos de insegurança, deitam a sua própria fraqueza para cima dos filhos inquietos. São vozes boas: " deves fazer o melhor possível, mas não te inquietes se não fores o melhor"; ou "põe-te no lugar do outro" (a perda deste sentimento do outro é característica de muitas crianças e adolescentes actuais, habituadas a uma gratificação imediata e incapazes de sair da sua posição de autocontemplação). Outra voz boa poderá ser: "vais conseguir, se te esforçares com persistência", porque o incentivo ao esforço continuado é um dos êxitos seguros na educação. E também é uma voz boa " pensa antes de agir": sobretudo os adolescentes agem muitas vezes sem reflectir, nesta sociedade "sensorial" que fomenta o constante sentir em vez de pensar. A frase dos nossos avós " vê lá até onde podes ir" mantém toda a actualidade!

Perante as dúvidas, a indisciplina e insegurança de tanta gente nova, a resposta só pode ser uma: a voz coerente de mais adultos.

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Daniel Sampaior nasceu em Lisboa, em 1946. Médico, especialista de Psiquiatria, coordena no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o Núcleo de Estudos do Suicídio, destinado ao atendimento de jovens em risco de suicídio. O seu trabalho tem sido caracterizado por uma especial atenção aos problemas da adolescência, tendo conduzido muitas sessões de trabalho com professores,
pais e alunos das escolas básicas e secundárias. É autor de vários livros, entre os quais se destacam: "Inventem-se Novos Pais" (1994), "Voltei à Escola" (1996) e, mais recentemente, "Tudo o que Temos cá Dentro" (2000).

sábado, 6 de agosto de 2011

Riquezas


Por Ricardo Gondim

No Dia dos Pais, meus filhos me presentearam com um verso do Fernando Pessoa: “Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentaria nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens”. Como a Cynthia recortou o cartão artesanalmente, eu o guardo como uma relíquia.

Recentemente, um catedrático da Universidade de São Paulo ganhou uma festa de despedida no dia de sua aposentadoria. Na cerimônia, permitiram que o auditório fizesse algumas perguntas e um amigo aproveitou para indagar o que ele considerava a maior riqueza de um homem com mais de setenta anos. O decano respondeu: “A capacidade de discernir entre o que é importante e o que não possui nenhum valor”.

Realmente! A gente chega a uma idade em que carecemos de siso redobrado para não errar mais. O tempo, uma riqueza não renovável, se torna escasso, e precisamos desfrutar a vida com muito cuidado.

Tento segurar os ponteiros para poder acompanhar meus netos em seus momentos mais inocentes. A Gabriela zomba de minha careca cantando: “Eu vi uma barata na careca do vovô...”. O Naran me desafia para lutas homéricas na cama, em que ele é o Super-Homem e eu não posso passar de um reles Homem Aranha, sem direito a me valer da criptonita. O Felipe é quem mais me dá beijo no mundo e eu me sinto amado como nunca. Eles se tornaram mais importantes que os aplausos aduladores de quem não me conhece, mais valiosos do que as honrarias plásticas que nada significam.

Hoje, recuso-me a adiar qualquer oportunidade de celebrar a vida ao lado da mulher de minha mocidade. Ela é minha Dulcinéia, que caminha ao meu lado e me defende como uma leoa. Sou feliz em ver como ela, obstinadamente, insiste em não permitir que nosso dia-a-dia se torne monótono, zelando para que nosso amor não esmoreça. Nunca entristecemos ao mesmo tempo. Quando ela se cansa, eu a ajudo, e quando me deprimo, acolho suas palavras, que me afirmam carinhosamente.

Depois de tantas decepções, guardo os poucos amigos que me restam no lado esquerdo do peito. Aprendi a valorizar a fidelidade como uma virtude raríssima; sei ser grato pela mão estendida; sinto-me endividado pelo amor gratuito. Como é bom tomar café com pão de queijo perto de quem a gente sente liberdade para rir, chorar e sonhar.

Aprendi a olhar para Deus com menos cobranças religiosas. Sinto que Ele abre as portas de sua casa como um hospedeiro que unge a minha cabeça com óleo e prepara uma mesa na presença de meus inimigos. Abandonei a presunção infantil de exigir que o Senhor me dê uma vida blindada ou que Ele me privilegie com favores especiais. Hoje, desejo municiar-me com os valores do Reino, com as verdades de Jesus para enfrentar a vida com coragem.

Desejo ler as Escrituras com a credulidade infantil, com a sensibilidade poética, com a honestidade bereana e, principalmente, com a verdade do Espírito Santo.
Cheguei à idade em que não me impressiono mais com os arroubos pretensiosos dos religiosos ufanistas. Dou de ombros para os títulos, para as estatísticas elásticas que provam uma dotação carismática. Desdenho o oportunismo do mercadejador de esperanças, que usa o sagrado para enriquecer. Não respeito quem enxerga a igreja como um nicho de mercado.

Existem riquezas que outrora não valorei, mas que agora são importantíssimas. Ler um bom livro e ouvir uma música calma se tornaram valores preciosos. Tardiamente, passei a admirar os tenores eruditos, os poetas contemporâneos e os cronistas que registram o cotidiano.

Viver me enche de entusiasmo. Não tento mais matar o tempo. Quero sorver a vida com tudo o que ela tiver de bom e de ruim. Como um colecionador de borboletas, procurarei guardar, daqui para a frente, todos os meus momentos em estojos de cristal.

A vida é rara, só a experimentamos uma vez. Devemos tratá-la como o dom mais sagrado que recebemos de Deus. Quem não souber valorizá-la, antecipa o inferno. Portanto, meu versículo bíblico predileto passou a ser: “Ensina-me a contar os meus dias, para que meu coração alcance sabedoria” (Sl 90.12).

Soli Deo Gloria.
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